domingo, 27 de junho de 2010

Pensamentos

13:59h
Silêncio. Não é que ninguém dissesse nada, ou que eu nada pensasse, mas eu podia sentir o silêncio mesmo assim. Nunca soube por meus pensamentos em ordem. Pensamentos não são para se por em ordem. São apenas palavras, internamente vomitadas. Ao meu redor todos falam tanto, e sobre tantas coisas, fúteis ou não. Elas não me importam. Parece que ninguém me vê, embora eu sempre esteja aqui. Talvez me vejam quando eu não estiver mais. Vão olhar para os lados e dizer:
-Cadê a garota que ficava ali?
-É mesmo, tinha uma garota ali, agora não tem mais.
-Como ela era mesmo?
-Era loira.
-Morena.
-Alta.
-Baixa.
-Gorda.
-Magra.
Ninguém sabe como eu sou, porque nunca repararam.Como se eu fosse só um objecto feio de decoração, que ninguém para para ver. Mas isso é bom. Assim ninguém percebe quando eu rio de uma piada ou comentário idiota que alguém fez. Seria um desastre se percebessem. Então, ninguém vê também quando eu choro, já que isso também faço em silêncio. Embora meu interior grite. Olho o relógio.
14:00h
Penso comigo mesma. Quanto tempo eu levaria para por todos meus pensamentos em ordem e dizer às pessoas, de forma que elas entendam, tudo o que eu quero dizer?

sexta-feira, 25 de junho de 2010

"Eu tenho habilidade...

...de fazer histórias tristes virarem melodia
E vou vivendo o dia-a-dia
Na paz, na moral, na humilde, por si só sabedoria"
 Charlie Brown Jr.

Este é um trecho de uma das músicas que eu mais gosto. Antes eu nem ligava para a letra que elas, as músicas, tinham, tendo uma batida legal já era o suficiente. Mas aprendi, com uma amiga minha, das melhores, confesso, que tem muita coisa por trás de uma música, assim como pode também ter muita coisa por trás de um texto.
E descobri, sozinha dessa vez, que nesta música tem tudo o que eu preciso, para quando estou triste, feliz, magoada, precisando de um puxão de orelha ou só de um motivo para não desistir, cada trecho me diz uma coisa. E hoje eu precisava deste.
Eu sei que não tenho, talvez ainda, mas seria pretensão demais acreditar nisso, a habilidade de fazer com que histórias tristes, minhas ou não, virem melodia. Mas tento constantemente, ainda que não seja compreendida, ou levada a mal seja por quem for.
E assim vivo, o dia-a-dia ou, simplesmente, a cada instante, tentando agir como ele fosse o último, mas com plena certeza de que tal proeza não me é fácil. Fui educada para ver o futuro, pensar nele, como se o agora nunca fosse importante o suficiente, e, sem ajuda, percebi que essa não é a verdade.
Talvez alguém se pergunte, agora, ou algum dia, como seria viver o hoje, o que se deve fazer?
A resposta, mesmo sendo um tanto quanto simples, só o é na teoria. Me é, assim como para muitos outros, sabido que na prática tudo fica um pouco mais complicado, e de difícil execução. Mas nesse caso, a dificuldade aumenta. O conceito, como já disse, é simples: gerar e manter a paz, a moral, tanto para si quanto para os outros, a humildade, que é, por si só, a maior sabedoria.

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Viagem

"Abri meus olhos, foi como se um peso os empurrasse para baixo, mas eu lutei contra ele. Eu precisava levantar, já eram 22h e eu precisa delas naquele momento. Se não ficaria louco. Ouvi passos vindo para o meu quarto. 'Ninguém merece', pensei, 'deve ser aquela velha da minha mãe'. Dessa vez eu não ia fingir que estava dormindo, precisava de dinheiro, 'pelo menos isso ela tem'.
-Filho, você acordou, meu amor.
-Eu quero dinheiro.
-Dinheiro? Mas para quê?
-Não te interessa! Eu quero, quero agora!
-Mas eu não tenho para te dar.
-Saco!
Não aguentava mais aquela mulher, achei que se eu começasse a arrebentar a casa ela me daria o que o queria. Dei um chute no guarda roupas e saí do quarto. Então fui para o quarto dela e comecei a revirar as gavetas, lá deveria ter alguma coisa. Foi quando ela apareceu atrás de mim, feito uma assombração, tentando me segurar, foi em vão, peguei tudo o que achei de valor, no quarto dela e no meu. E quando ia saindo passei pela sala, e peguei o aparelho de telefone.
Saí, fui directo à porta da boate, lá na frente mesmo vendi tudo, deu, não tenho certeza, mas acho que R$200. Paguei R$15 na entrada, e o resto comprei em pedra. Eu usei tudo sozinho, e briguei com um cara para tentar roubar a que ele usava. Foi quando o segurança me expulsou de lá.
Ele me jogou na rua, onde eu fiquei xingando, gritando, e fazendo escândalo até pegar no sono. Acordei no outro dia 15h."
-E é isso, doutor. Semana passada eu tive mais uma recaída.

sábado, 19 de junho de 2010

Libertação.

Meus pés descalços já nem sentem mais dor, as pedras que ele pisa, nele penetram, mas apressa não me deixa parar para retirá-las. Já é noite, a mata é densa, e eu ainda ouço ruídos de que me perseguem. Já me canso, mas não paro, o medo não deixa. Por onde passo, os galhos me arranham, meu sangue escorre pelos braços, mas o desespero não me deixa estancá-lo.
De súbito, tenho que parar, avisto um abismo em minha frente. O que antes era só um murmúrio agora se torna um falatório imenso. Posso distinguir entre as vozes uma que diz:
-Ela parou, ela parou!
Era Wapenzi, minha filha. Eu sabia que ela havia me denunciado, mas não era capaz de considerar isso uma traição, nem tampouco odiá-la. Ainda mantia por ela o mesmo amor e carinho de uma mãe, que, com imenso esforço, criou uma filha sem a ajuda de ninguém.
Olhando para trás já posso ver a luz das tochas e a ponta das lanças e dos tridentes. Respiro profundamente e, o pouco que me é possível proferir escapa-me pela garganta, como se fosse um grito de libertação:
-Não sou uma bruxa!
Foi quando senti uma pancada, e alguém me arrasta pelos cabelos mata adentro. Então não vejo mais nada.

quinta-feira, 17 de junho de 2010

A culpa é de quem?

Era Páscoa, ela saia de sua casa, acompanhada do namorado, ambos levavam vários ovos de chocolate, que eram presentes para seus sobrinhos. Era um dia para a felicidade, iam comemorar com a família, como deveria ser. Estavam já dobrando a esquina, quando uma voz os surpreende:
-Tia! A senhora tem uma moeda?
Ela, por um momento ficou paralisada, não sabendo ao certo o que a deixara dessa maneira. Não podia deixar de encarar aqueles imensos olhos negros, eles tinham muito mais do que os outros que ela vira. Tinham vida. E uma vida muito sofrida. Algo longinguo, além de sua realidade. Então ela disse:
-Não. Não tenho.
E se foi. Com sua sacola cheia de ovos de Páscoa, e seus bolsos amarrotados de moedas.


(baseado no depoimento de Bruna)

terça-feira, 15 de junho de 2010

Ritmo, é ritmo de copa!

Eu estava no colégio, e isso não é muita novidade, era aula de geografia. A professora falava:
- Nos anos 60, 70 o Brasil queria pertencer ao OCDE, mas não foi aceito. Agora, em 2010, a China queria que o Brasil se tornasse um membro permanente, mas ele não quis.
Foi quando veio lá do fundo, de uma aluna que, eu nem vi, na verdade, quem era:
- Olha! O Brasil está podendo, o Brasil é penta!
Penta? Eu nem acredito que eu ouvi isso! Fiquei puta da vida, porque tomei isso como um espelho do que o brasileiro vê no Brasil. E é triste pensar, que apesar dos avanços, embora lentos, de nosso país, o único orgulho de um brasileiro ainda é nosso futebol.

sábado, 12 de junho de 2010

Cuidar do planeta, tem que ser agora!

Acontece, aqui no Brasil, neste ano de 2010, a Conferência Internacional Infanto-Juvenil "Vamos cuidar do Planeta", que é uma campanha pedagógica que traz a dimensão da política ambiental para a educação. Ela mobiliza e engaja jovens, entre 12 e 14 anos, em pesquisas e debates com a comunidade escolar sobre os desafios socioambientais comtemporâneos.
No encerramento da Conferência, os participantes de 53 países entregam a carta de responsabilidade "Vamos Cuidar do Planeta" ao Ministro da Educação, no caso Fernando Haddad. Nesta carta são elaboradas propostas para a melhoria do nosso planeta, atendendo a necessidade de cada país. Os problemas que temos aqui são diferente dos problemas de outros continentes.
Entre os principais tópicos da carta estão: sensibilizar e informar as pessoas sobre o uso eficiente e responsável da água; reduzir a poluição da água; informar e estimular as pessoas para que reduzam a emissão de gases de efeito estufa; estimular uma agricultura sustentável, consciente e menos impactante social e ambientalmente; cuidar do meio ambiente,fortalecendo e aprofundando projectos educacionais; criar grupos ecológicos junto às comunidades que protejam, preservem e valorizem a biodiversidade; incentivar o consumo adequado, ou seja, reflectir, recusar, reduzir, reutilizar e reciclar; reduzir o uso de energias impactantes; implementar perspectivas e valores ambientais.
A simplicidade do debate de temáticas urgentes desperta e fortalece a participação da comunidade, o que é bom, já que tais temáticas são usualmente restritas aos centros de pesquisa ou de formulação de políticas públicas.Esta acção promove o reconhecimento de que podemos assumir responsabilidades individuais e colectivas para promover a melhoria da qualidade de vida local e planetária.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Deus o quiz

Ontem foi um dia santo. E é desde 1264. Santos deveriam ser todos os dias, mas não o santo do Santo. O santo som dos sinos dento do peito que faz tum 

tum 

tum 

e para. Depois de um suspiro ele faz de novo.

 Tum. E para.



A ultima bruxa foi queimada na Suíça em 1731 e nem bruxa era, nunca existiram bruxas elas eram curandeiras que concorriam com o poder curativo da fé. É. Todos os dias deveriam ser profanos desde 1264. Mas não o santo do Santo.

Bruxas: mulheres que curavam, do sânscrito: Sábias. É no cristianismo que foram chamadas de bruxas. No período neolítico já existia rituais e práticas de bruxaria, rituais simbólicos.

 Todos os dias deveriam ser sagrados desde 1264. 

Profanos só a mente e coração. Só está a mente.
 Mente. Eternamente. Todas as mentiras sagradas foram profanas desde 1264.
.

Só o coração 
entende a mente.
 Eternamente.

 Todas as mentiras foram sagradas e profanas, duas modalidades de ser no mundo desde muito antes de 1264. Desde quando todos ainda nem sabiam, o que era um dia santo.

 Quando santos eram todos os dias.

"Um canto, no banco, um instante, eterno, todos os santos, observe, capim santo, no vento, no campo, tempo, santo pensamento. É teu talento que me comove. Tua dor que me dói. São todos os dias que vejo entrando e saindo sem que possa ao menos tocar tua mão. Toda a amargura deste silencio que miseravelmente vou digerindo, aqui no escuro desta cela. 

A luz privou-me do beneplacido de sua presença e me fez encolher neste canto, no chão. O banco virado, o vento despenteando o desalinho do tempo, a saudade. O corpo bento, o pensamento profano. Sem alarde a tarde escura se adentra em mim com um toque de amargura,me fere,na dor santa da rosa sem espinhos entre os muros emparedada.

o vento me toca em seu caminho torto,
o toque dos sinos ,o suspiro entre as sedas e a espuma das nuvens. Como um vento passageiro assim é a vida do homem, feito a pássaro em seu voo livre, nossos pensamentos profanos, senhor absoluto de dias santos, seguem. Ferimos e somos feridos.

 E é desde muito antes de 1264. Mas Domingo é sol. Santo. Pensamento dourado, incapaz, um fiapo. Um banco, de branco, é belo. Fecho os olhos e canto. Empresto minhas asas. Ao ar. Ao vento. Ao capim santo. Ao Santo. Ao seu encontro. Não te encontro. No canto, no banco, no tempo. Ano Domini 1264."

O padre morreu. 

Foi encontrado num canto de sua cela com cartas de amor em suas mãos, de um amor que nunca teve, saudades de um tempo que para ele nunca existiu.


Foi na mesma noite naquele domingo do ano de 1264

(Texto escrito por: Tina , sueli aduan, Emilia, cristinasiqueira & Cajadomatic)

terça-feira, 8 de junho de 2010

llegal ou legal?

É certo que, desde 1989, na comissão internacional que cuida de espécies ameaçadas (Cites), formadas por representantes dos governos de 175 países, entre eles o Brasil, foi declarado ilegal o comércio de marfim em todo o mundo.
Em Março deste ano, os governos da Tanzânia e da Zâmbia solicitaram a permissão da Cites para vender legal e internacionalmente um estoque de 112 toneladas de marfim. Material esse que, segundo os acima referidos países, são provenientes das presas de 20 000 elefantes mortos naturalmente ou por caçadores clandestinos e depois apreendidos, porém, se nos basearmos em experiências anteriores, como em 1997 ou em 2007, quando a Cites abriu excessões com relação a venda desses materiais, chegaremos à conclusão de que isso pode representar um golpe na preservação dos elefantes africanos, já que o aumento da demanda por marfim acabou por incentivar a acção dos caçadores.
Um grupo de ambientalistas de vários países advertiu, há algumas semanas na revista Science, que se a Cites abrir uma nova excessão à proibição à venda de marfim, por volta de 2020 os elefantes estarão extintos.
Acaba-se, portanto, travando-se uma espécie de guerra entre ambientalistas e caçadores. O que vencerá? A vida ou as jóias?


(devidamente corrigido)

domingo, 6 de junho de 2010

Mãe diz:

Menina não fica na janela
penteando seus cabelos longos.
Menina vem cá pra dentro,
que não existe vida de sonhos.

Larga essa vida, menina!
De ficar a esperar...
Vem dar duro, menina!
Que o tempo está a passar...

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Sera que ainda sou;

Uma mulher do topo da árvore?

Vida simples, vida boa!

- Enquanto o café passa lentamente pelo coador eu, olhando pela janela vejo o terreiro, levo na mão uma pequena xícara, que ganhei de presente de casamento. Parece que foi ontem a festa... Todo mundo dançando e se divertindo, família, amigos, até minha mãe. Coitada! Está tão doente, hoje vou visitá-la, vou levar a Inosan para que ela a veja.
O café fica pronto, termino meu serviço aqui na cozinha, tudo com o mínimo de ruído possível para não acordar meu bebê. Mas é em vão, ouço seu choro baixo, mas de quem sabe o que quer: leite. Ninguém nunca me disse que seria fácil essa vida de casada, mas eu fiz o que eu quis, me casei por amor, e não foi com o primeiro namorado que tive. Muitas das mulheres da vila ficaram indignadas, onde se vira isso? Disseram que minha mãe deveria me proibir de ver tantas fitas de cinema. Mas não foi o que ela fez. Ela fez o que deveria fazer, é quem eu mais amo nessa vida!

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Cerca de dois meses depois minha mãe morreu. Criei praticamente sozinha, se não fosse meu marido, cinco filhos. Quando a mais nova tinha 16 anos ele morreu. Hoje sou mãe, avó. E tenho orgulho de tudo o que fiz.


(Baseado em um depoimento real);

quarta-feira, 2 de junho de 2010

Pai, me ensina a ser palhaço?

Sentada em meio à multidão, a música ressoa no lugar, não sei mais onde meus pais estão. Acho que estou perdida, mas não me importo, afinal gosto de ficar sozinha e não vejo mal nenhum nisso. Embora eu já tenha ouvido meus pais conversando algumas vezes, e meu pai dizia, preocupado, à minha mãe: "Não é normal, Marta, ela só tem 7 anos, deveria brincar, ter amigos, e não ficar sozinha e quieta pelos cantos", e ela sempre respondia, paciente, mas transpirando preocupação: "Ela diz estar observando, mas nunca responde exactamente o quê". Eles não entendiam, e eu sim respondia quando alguém me perguntava o que eu estava observando, eu dizia: "Tudo", e é a verdade. Foi quando, em meio à minhas observações eu vi. Ainda não havia reparado, tinha um palhaço lá, bem no meio do campo, brincando com várias crianças. Eu sabia o que palhaços eram: pessoas que pintavam o rosto, fingiam ter uma voz engraçada, colocavam uma peruca colorida e brincavam com crianças. Mas este não era um palhaço como todos os outros, este me intrigou. Assim que percebeu que eu o olhava ele me olhou de volta, mas não sorriu. Apenas me olhou, no fundo de seus olhos, muito além da pintura eu pude ver, o que nunca vira em mais ninguém, eu vi uma pessoa, eu vi uma alma. Já havia ouvido em uma novela que mamãe assisti que "Os olhos são a janela da alma". No mesmo dia em que ouvi tal frase passei a observar os olhos das pessoas, porém não encontrei nenhuma alma, então olhei os meus, através do espelho, e nada. Ele continuava a me olhar, eu não entendi muito bem, mas quando dei por mim já estava perto do palhaço. Eu nunca havia falado com ninguém, somente respondia ao que me perguntavam, geralmente minhas respostas eram compostas de apenas uma palavra. Mas dessa vez eu falei primeiro, e foi uma frase, foi uma pergunta: "Como você faz isso?", não foi preciso que eu explicasse o que era isso como aconteceria se eu perguntasse a outra pessoa, mas não, para ele não, ele tinha alma. Com calma, ainda me encarando, abriu vagarosamente um imenso e radiante sorriso: "Eu não sei". Em outra ocasião, eu consideraria a resposta completamente tola, mas não foi o que eu pensei na hora. O palhaço me estendeu a mão, e eu a segurei, então caminhamos até perto de um microfone, onde meu pai anunciava minha ausência. Segurei a mão de meu pai e fomos embora, não sei se ele me fez perguntas, não sei se ele me disse algo, eu não ouvi, só pensava no palhaço e na alma que só ele tem. Cheguei em casa e corri até meu quarto, de súbito parei em frente ao meu espelho e nem soube o que fazer. O brilho, que antes não estava em meus olhos, de repente apareceu, agora eu tinha alma.