sábado, 19 de junho de 2010

Libertação.

Meus pés descalços já nem sentem mais dor, as pedras que ele pisa, nele penetram, mas apressa não me deixa parar para retirá-las. Já é noite, a mata é densa, e eu ainda ouço ruídos de que me perseguem. Já me canso, mas não paro, o medo não deixa. Por onde passo, os galhos me arranham, meu sangue escorre pelos braços, mas o desespero não me deixa estancá-lo.
De súbito, tenho que parar, avisto um abismo em minha frente. O que antes era só um murmúrio agora se torna um falatório imenso. Posso distinguir entre as vozes uma que diz:
-Ela parou, ela parou!
Era Wapenzi, minha filha. Eu sabia que ela havia me denunciado, mas não era capaz de considerar isso uma traição, nem tampouco odiá-la. Ainda mantia por ela o mesmo amor e carinho de uma mãe, que, com imenso esforço, criou uma filha sem a ajuda de ninguém.
Olhando para trás já posso ver a luz das tochas e a ponta das lanças e dos tridentes. Respiro profundamente e, o pouco que me é possível proferir escapa-me pela garganta, como se fosse um grito de libertação:
-Não sou uma bruxa!
Foi quando senti uma pancada, e alguém me arrasta pelos cabelos mata adentro. Então não vejo mais nada.

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