quarta-feira, 2 de junho de 2010

Pai, me ensina a ser palhaço?

Sentada em meio à multidão, a música ressoa no lugar, não sei mais onde meus pais estão. Acho que estou perdida, mas não me importo, afinal gosto de ficar sozinha e não vejo mal nenhum nisso. Embora eu já tenha ouvido meus pais conversando algumas vezes, e meu pai dizia, preocupado, à minha mãe: "Não é normal, Marta, ela só tem 7 anos, deveria brincar, ter amigos, e não ficar sozinha e quieta pelos cantos", e ela sempre respondia, paciente, mas transpirando preocupação: "Ela diz estar observando, mas nunca responde exactamente o quê". Eles não entendiam, e eu sim respondia quando alguém me perguntava o que eu estava observando, eu dizia: "Tudo", e é a verdade. Foi quando, em meio à minhas observações eu vi. Ainda não havia reparado, tinha um palhaço lá, bem no meio do campo, brincando com várias crianças. Eu sabia o que palhaços eram: pessoas que pintavam o rosto, fingiam ter uma voz engraçada, colocavam uma peruca colorida e brincavam com crianças. Mas este não era um palhaço como todos os outros, este me intrigou. Assim que percebeu que eu o olhava ele me olhou de volta, mas não sorriu. Apenas me olhou, no fundo de seus olhos, muito além da pintura eu pude ver, o que nunca vira em mais ninguém, eu vi uma pessoa, eu vi uma alma. Já havia ouvido em uma novela que mamãe assisti que "Os olhos são a janela da alma". No mesmo dia em que ouvi tal frase passei a observar os olhos das pessoas, porém não encontrei nenhuma alma, então olhei os meus, através do espelho, e nada. Ele continuava a me olhar, eu não entendi muito bem, mas quando dei por mim já estava perto do palhaço. Eu nunca havia falado com ninguém, somente respondia ao que me perguntavam, geralmente minhas respostas eram compostas de apenas uma palavra. Mas dessa vez eu falei primeiro, e foi uma frase, foi uma pergunta: "Como você faz isso?", não foi preciso que eu explicasse o que era isso como aconteceria se eu perguntasse a outra pessoa, mas não, para ele não, ele tinha alma. Com calma, ainda me encarando, abriu vagarosamente um imenso e radiante sorriso: "Eu não sei". Em outra ocasião, eu consideraria a resposta completamente tola, mas não foi o que eu pensei na hora. O palhaço me estendeu a mão, e eu a segurei, então caminhamos até perto de um microfone, onde meu pai anunciava minha ausência. Segurei a mão de meu pai e fomos embora, não sei se ele me fez perguntas, não sei se ele me disse algo, eu não ouvi, só pensava no palhaço e na alma que só ele tem. Cheguei em casa e corri até meu quarto, de súbito parei em frente ao meu espelho e nem soube o que fazer. O brilho, que antes não estava em meus olhos, de repente apareceu, agora eu tinha alma.

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