quarta-feira, 3 de novembro de 2010

ENUB adaptação- parte II


ATO II
TIÃO – Pai vem ver o jornal, tem uma nota sobre a greve na primeira página!...
 OTÁVIO – Se até as oito horas da noite não derem o aumento, greve geral na metalúrgica!
TIÃO – Ninguém tem peito, pai!
OTÁVIO – Como não tem peito? Está esquecido do ano passado?
TIÃO – Eu não estava lá.
OTÁVIO – Mas eu estava! Deram o aumento ou não deram?
TIÃO – Deram parte do aumento, parte! E mesmo assim porque todas as categorias aderiram! Mas aguentar o tranco sozinho, ninguém.
OTÁVIO – Espera só a assembleia de hoje e vai ver se tem peito ou não! Eu tinha avisado, hein! O ano passado entrou em acordo com o patrão e foi o que se viu. Agora, aprenderam.
TIÃO – E por que entraram em acordo?
OTÁVIO – Porque parte da comissão amoleceu...
TIÃO – Está vendo, tá aí! Se, em greve de conjunto metade da turma amoleceu...
OTÁVIO – Metade da turma não senhor! Metade da comissão.
TIÃO – E então?
OTÁVIO – E então, o quê? Eram pelegos! A turma topava, mas tinha meia dúzia deles que eram pelegos. A turma topava, os pelegos deram para trás.
TIÃO – Não, pai, Para o senhor, quem não pensa como o senhor é pelego...
OTÁVIO – Nada disso! Eram pelegos no duro. Está aí a prova: está tudo bem arrumado no fábrica. Todos são chefes e fiscais. O que é isso? Peleguismo, traidores da classe operária...
TIÃO – Então metade da turma lá na fábrica é pelego, porque estão todos com medo da greve.
OTÁVIO (furioso) – Não diz besteira, seu idiota! A turma que tá aí é a mesma que fez greve o ano passado e que aguentou tropa de choque em 51...
TIÃO – E por isso mesmo estão cansados e não querem saber de arriscar o emprego...
OTÁVIO – Está discutindo como um safado!... Pois fique sabendo que lá tem operário e não menino família para medrar.
ROMANA (entrando) – Não grita tanto homem! Só vive discutindo política! (Pega mais sanduiches e sai.)
OTÁVIO (baixando a voz) – Vai me dizer com o resultado da assembleia de hoje! (Pausa.)
TIÃO – Os pelegos que furaram a greve ano passado estão bem de vida, é?
OTÁVIO – Depende do que você chama de bem de vida. Para mim eles estão na merda, merda moral que é pior! Venderam-se, né!
TIÃO – É! (Pausa.) Eu queria casar daqui a um mês, pai!
OTÁVIO – Bom!
TIÃO – O senhor gosta de Maria, não é, pai?
OTÁVIO – Pode ser uma boa companheira!
TIÃO – Ela é diplomada, sabia?
OTÁVIO – Tua mãe me disse... Que é que tem isso? Diploma não vale nada. Esse governo que está aí e tudo diplomado! Analfabeta mas honesta, mal educada, falando errado, mas com... Com aquele (procurando), aquele treco que só a gente tem aqui dentro (bate no peito). Essa é a mulher que eu queria para o meu filho... Mas você parece que não tem esse a tal treco.
TIÃO – Por quê?
OTÁVIO – Você tem medo.
TIÃO – De quê?
OTÁVIO – Uma porção de medos... Um é o de perder o emprego.
TIÃO – Não é medo...
OTÁVIO – Então por que você foi ver se arrumava emprego no escritório da fábrica?
TIÃO – Ganha mais.
OTÁVIO – Você também procurou na farmácia do Dalmo... Lá ganha menos...
TIÃO – Foi só para ter uma ideia...
OTÁVIO – Sinceramente?
TIÃO – Não tenho nada para esconder!...
OTÁVIO – Acha que aguenta as lutas da fábrica sem medo!...
TIÃO – Se os outros aguentarem.
OTÁVIO – Se não aguentasse?
TIÃO – O senhor acha que a turma vai topar a greve?
OTÁVIO – A assembleia é hoje à noite. Bráulio está lá, ele vem com as novidades... Tá aí um que tem esse tal treco...
TIÃO – Têm poucos assim!
OTÁVIO – Engano.
TIÃO – Ninguém vale nada, pai!
OTÁVIO – Como você tem medo!
TIÃO (irritado) – Mas medo de que, bolas!
OTÁVIO (imperturbável) – De ser pobre... Da vida da gente!
TIÃO (com um gesto de quem afasta os pensamentos) – Ah! Estou é nervoso... Estou apaixonado, pai... Não liga, não!
ROMANA – O pessoal está chegando! (entram Maria e João)
OTÁVIO – Então já pode fazer o pedido, né filho?
TIÃO (a Maria) – Vamos?
MARIA – Vamos! (Todos se reúnem em volta da mesa.)
TIÃO (em meio a um grande silêncio) – Bem... Hum... Seu João. Eu conheci Maria, gostei... E quero casar... Porque gosto dela, e ela de mim... É só. (Palmas.)
JOÃO – Seu Sebastião, eu, em nome da família de Maria, em nome de nossa mãe que doente não pode estar aqui, eu quero dizer para todos que é com alegria e satisfação que nós te recebemos na família, fazendo o único pedido: que você faça a Maria feliz! E que esteja tudo na graça de Deus! (palmas) Uma viva para os noivos!
TODOS – Viva!...
MARIA – Chegou o Bráulio. Trouxe notícias da fábrica!
OTÁVIO (dando a cadeira a Bráulio) – Senta homem, está cuspindo o pulmão!
BRÁULIO (arfando) – Êta subidinha brava!
ROMANA – E eu que subo isso umas quatro vezes por dia!
BRÁULIO – A senhora é de ferro, D. Romana. O nego não tem os pulmões lá muito em dia, não!
OTÁVIO – Boa a Assembleia?
BRÁULIO – Estava.
OTÁVIO – Nossa turma estava toda lá?
BRÁULIO – Só faltou você (continua arfando e enxugando o suor com o lenço).
OTÁVIO (triunfante, olhando para Tião:) Eu não falei? E turma é do barulho!
TIÃO (sério, abraça Maria) – Tinha muita gente lá?
BRÁULIO – Tinha, tinha... A turma do sindicato estava toda...
OTÁVIO – Já tem gente aderindo?
BRÁULIO – Por enquanto é muito cedo... Não, o negócio não vai ser sopa. Segunda-feira, cedinho, vamos nos  concentrar na porta da empresa. Vão querer obrigar a gente a entrar, mas nós não entraremos!
TIÃO (rígido) – Não vai ser sopa!
OTÁVIO – Não é a primeira que a gente faz!
Silêncio.
BRÁULIO – Ah! Quase me esqueço. Dá cá um aperto de mão (Maria e Tião seguram as mãos de Bráulio). Felicidades para vocês... Quando é que casam?
TIÃO – Daqui um mês, eu queria... Daqui um mês...
ROMANA – vamos lá para fora que a festa está apenas começando

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