quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Chego em casa.

Está tudo tão normal, igual. A cor acinzentada a qual já me acostumei. A luz cálida que entra pela porta aberta vai perdendo a intensidade enquanto subo os três lances de escada anti derrapante. Subindo observo a porta do apartamento 13. Ela me intriga. Passo por ela como sempre, fingindo não dar importância. Mas agora é diferente. Quando já estava eu a subir pelo meu terceiro e último lance de escada, ouço os passos de alguém que sobe apressadamente. Disfarço, pois quero saber quem é. Me parece tudo tão enfadonho que anseio por uma novidade qualquer. É uma freira. Rápida e apressadamente ela destranca a porta 13 e entra, deixando-a aberta atrás de si. Sinto a curiosidade a me consumir, talvez eu possa fingir que estava apenas fechando a porta para ela e finalmente ver alguns centímetros do tal lugar. Eu já havia visto uma senhora entrar e sair algumas vezes, imaginava ser alguma solteirona morando sozinha. Mas a presença da freira, com a chave da porta, me deixou apreensiva. Voltei dois degraus de maneira rápida e silenciosa e me dirigi à porta entreaberta. O primeiro cômodo, idêntico em todos os apartamentos do prédio, estava vazio, e era possível observar os tacos novos no chão, tão limpos e encerados como os da minha casa nunca estiveram. Ouço um som vindo do próximo cômodo, a cozinha. É algo como uma criança resmungando, parecendo um bebê com fome. Sigo em frente, mesmo sabendo que não deveria e que me arrependeria depois. Vejo a freira que acabara de entrar, ela está em pé, com uma pequena bacia na mão, na qual há um líquido vermelho vivo que me dá arrepios. A seu lado, sentada em uma pequena cadeira e com uma colher na mão, está outra freira. Mas o que me fez prender a respiração foi a presença que tornou a cena ainda mais exótica e perturbadora: um bebê, com cerca de 9 meses, eu diria, sentado confortavelmente no colo da segunda freira, apreciando às colheradas o tal líquido que lhe era entregue. Não era uma criança como as que eu já havia visto. Era mais bela, chegava a ser fascinante. Eu jamais havia me deparado com uma criatura tão bonita em minha vida. Era o rosto mais angelical que eu poderia imaginar. Porém, bastava um segundo fixo em seus olhos para mudar de ideia. Eram tão vermelhos quanto o líquido na bacia de metal. Talvez o reflexo deste intensificasse a cor. E seus olhos me olharam, profundamente me olharam, o que chamou a atenção das irmãs, que automaticamente notaram minha presença. Foi tudo muito rápido, agi sem pensar, instintivamente. Olhei para a porta por onde havia entrado, mas estava fechada. Entre mim e a saída pela varanda estavam as freiras, a me olhar interrogativamente, como quem diz: "O que quer aqui?". Fui o menos sensata possível no momento, e corri pelo corredor em direção aos quartos. Desesperada, sem saber o que fazer, fui até o fim do corredor, entrando no último e maior quarto. Estava mobiliado de forma simples, até normal demais para aquele lugar. Uma cômoda, encostada na parede à direita da porta, com objetos pessoais, como escova de cabelos e porta-retratos, um guarda-roupas pequeno de madeira à esquerda e, na parede oposta uma cama. Estava desarrumada e cheia de cobertores. Me aproximei devagar, sem saber o que fazia, e a vi. Estava deitada confortavelmente e com uma expressão alegre. Me olhou, de uma maneira que não pude interpretar e disse:
- Posso ajudar?
- Não sei.
- Sente-se.
Me sentei na cama, já não me importava mais com o que havia visto há pouco, quase me esquecia de porque estava ali. Era como um ímã para o qual não se pode parar de olhar, um passeio por minhas memórias mais secretas e talvez impuras. Eu já nem respirava mais. E se respirasse, seria a ela, a criatura que me avaliava com um sorriso no rosto e as mãos nas minhas. Foi quando começou a se aproximar devagar, me deitando com delicadeza. Eu estava seduzida e embebecida com o aroma mais doce que já havia sentido. Seus lábios seguiram em direção ao meu pescoço, roçando levemente. Agora eu não temia mais nada, não me lembrava sequer de meu nome, eu era ela, eu era dela. Quando voltou-se em minha direção, foi que senti seus lábios nos meus, e uma dor tão profunda quando se possa imaginar. Eram dentes cravados em minha boca e, ao me ver coberta de vermelho, súbito percebi qual era o conteúdo da bacia. Era o que eu continha também, e que ela agora bebia em mim.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Está tudo tão confuso!

E cada música que eu ouço, cada poema que eu leio me lembram tantas coisas! Muito do que era recente agora me parece tão distante, assim como o que aconteceu há muito tempo me soa tão perto. Meus pensamentos me traem a cada segundo, meus sonhos me surpreendem como nunca! Eu não me lembro de já ter estado tão fora de mim, de conhecer tão pouco de minhas vontades, meus desejos e angústias. É estranho como tudo vira de ponta-cabeça de repente... E a gente vai tentando se equilibrar, mas não sabe se consegue. Ao mesmo tempo em que tudo parece tão natural e normal, me vêm sentimentos novos e angústias eternas. Acho que nunca vou saber me definir.

quinta-feira, 24 de janeiro de 2013

E eu vou...

...E vou apenas indo. Já fiz planos para a vida inteira tantas vezes que precisaria de mais vidas para poder fazer tudo. Acho que agora chegou a hora de parar de planejar, mas o simples fato de eu dizer isso me faz estar planejando não planejar. Então não direi mais. Retiro o que disse. Acho que retiro. E acho que "acho" é a palavra que mais uso neste blog. Não que eu pense que a minha opinião é o mais importante, até porque nem sempre eu tenho opinião e, quando tenho, ela muda numa velocidade incrível! É quase constante. Mas o que eu decidi agora é o que vale. Talvez amanhã eu mude de ideia, mas aí é outra história...

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Ainda estou pensando no que vou fazer.


Ao criar o blog, nem eu sei qual foi minha intenção. Mas sei que com o tempo ele se tornou meu refúgio, onde eu poderia falar tudo o que quisesse e ter como resposta a opinião de pessoas que nunca nem sonhariam em me conhecer pessoalmente, e isso era bom. Mas eu fui encontrada e algumas coisas desagradáveis aconteceram. Isso já foi há um tempo e eu pensei que já estava na hora mesmo de as pessoas saberem o que eu realmente pensava e continuei. Só que agora eu não consigo mais. Eu penso no que queria tanto dizer e imagino que alguém que eu vejo quase todo dia vai ler. E vai me olhar. E vai saber dos meus pensamentos mais íntimos e isso me incomoda. Acho que é mais fácil se abrir a um estranho. Ele não conhece o meu dia-a-dia, minha rotina, minha família. Ele não sabe de nada e por isso não julga. Mas é incrível como a gente se apega às coisas. Eu me apeguei a este lugar. Me apeguei a escrever. Na verdade eu escrevo há muito tempo, e não era à toa que eu escondia tudo embaixo da gaveta. Acho que eu mesma me censuro, me proíbo, achando que esta censura vem de fora. É fácil vir e falar de coisas boas, as pessoas gostam de ser citadas em coisas boas. Mas existem momentos de mágoa que eu sinto a necessidade de exprimir mas não quero expor ninguém. Nem a mim.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Felizes os ignorantes...


... que repetem o que outros ignorantes disseram a vida toda, acreditando estarem corretos. Na verdade eles não fazem a menor ideia do que estão dizendo, mas ouviram isso tantas vezes que se tornou verdade em sua mente.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Pensei em tanta coisa.


Por estes dias o que eu mais tenho feito é pensar. Se eu pudesse gravar meus pensamentos teria publicado muitos textos. Livros. Eu penso continuamente mas escrevo com pausas e isso tem sido um problema. A falta de escrever me deixa com falta de mim e excesso de pensamentos. Acho que vou voltar para o meu mundo, passei tempo de mais na realidade e ela me incomoda profundamente. Tenho me sentido confusa e ela não me ajuda em nada. É desconfortável estar em casa e não se sentir em casa, pensar até o coração doer e não conseguir achar um jeito de se adaptar. Talvez seja porque não sou um ser evolutivo. Vou juntar minhas pessoas e voltar ao meu mundo. Ao contrário do que pode pensar, não existem pessoas imaginárias em meu mundo. O imaginário tem muito eu, já não me surpreende. Gosto do outro. O outro é novo, um universo a se descobrir. Vejo o outro no espelho e não o reconheço. Que coisa fascinante é o espelho.