terça-feira, 30 de abril de 2013

O pior sentimento do mundo

Tenho em mim um vazio, um buraco, um nada. Tenho aqui a certeza dessa dúvida que me atormenta. Não sinta pena. A pena dói. Talvez eu não queira mesmo falar. Não querer fazer é diferente de ter perdido a capacidade. Quem sabe eu só tenha construído outras maneiras de me expressar, quem sabe eu queria ser lida e não ouvida. Lida nos olhos, palavras e boca. Mas, por favor, não sinta mais pena, nem de mim e nem de ninguém. Pois esse é o pior sentimento do mundo, trás em si um asco oculto, uma repulsa involuntária. E o meu vazio só cresce, cresce que não cabe nem no mundo. O meu vazio engole o mundo, mastiga, o meu vazio digere o mundo e o mundo não o satisfaz. Aí você me vem com a tua pena, e eu sinto inveja de você. Eu invejo um não-sei-o-quê que vejo toda a vez que te olho e que atrai as pessoas. Invejo esses olhos que tem tanta coisa. Eu te invejo pelas pessoas, todas elas, que te querem sempre perto e a forma como você vai. Eu posso estar errada, você pode estar errado, mas de uma coisa eu tenho certeza: não tenho certeza de nada, certeza é uma palavra muito forte, pesada, pontiaguda e a minha solidão vem de dentro. Minha solidão não é dos outros, é só minha. É solidão de palavras, ideias, gestos e pensamentos. Os outros só me fazem momentaneamente esquecer, mas ela me persegue, ela vem à noite quando não tem ninguém do lado. Ela vem à tarde quando o silêncio machuca. Ela vem em casa no quarto, ouvindo risos. Ela vem no fundo da sala. Ela vem andando na rua. Ela vem.

domingo, 28 de abril de 2013

Tendência

Você não é como ela
e ela nem sabe quem é você.
Ele mal a olha
e ela finge que não vê.

O mundo conduz e condiz
e eu nem sei do que falo.
O mundo é palco e espectador
e eu acho que sei o que é amor.

quarta-feira, 24 de abril de 2013

Sentados

Discutindo a Lei da Inércia
no cabelo da mulata.
Como somos tão sensatos!

Parados
criando a mais nova ideologia
baseada na novela das oito.
Somos mesmo hilários!

Mentes pensantes de microondas
fazendo macarronada no sol.
Faz sentido para você?

A vagabunda, o sociopata, o demagogo.
Por que você nos olha com cara de nojo?

Good, good, good job!

segunda-feira, 22 de abril de 2013

Ao me virar...


 ...me deparei com seu rosto bem próximo ao meu e pude ouvir meu coração gritar.

Calmamente, como quem já tinha tudo premeditado, ela disse.

- Era mentira.

- O que?

- Não importa. Acho que já sabe porque o trouxe até aqui.

Na verdade, não sabia. Eu apenas podia imaginar mas não tinha certeza de que não era só a minha vontade agindo sobre mim.

Ela me olhou profundamente nos olhos, de uma maneira nova, única. Sorriu por um breve instante e se retirou em direção à cama. O que aconteceu depois foi um misto de luxúria, curiosidade e deleite.

Deitado ao lado de Alice naquela cama, olhando o teto sujo do quarto simples me senti renovado de uma maneira que lembrou casos passados. Me virei para lhe dar mais um beijo e vi que trazia lágrimas nos olhos. Não pude entender o que havia. Estava me sentando e me preparando para lhe indagar sobre quando lentamente abriu a gaveta do criado-mudo que estivera até então cumprindo bem seu papel em um canto e retirou um lustroso revólver.

Da mesma maneira, se pôs de pé e o posicionou comodamente na têmpora direita.

- O que está fazendo?

- Eu disse que era mentira.

- O que era mentira? Você é maluca?

- Isabel Santiago. Se lembra?

Tinha uma ideia vaga do nome, ela não passou de um de meus casos. Insistia que estava grávida e desapareceu após o primeiro maço de notas e pedido de aborto. Na minha opinião, não passava de uma vagabunda, mas a menção ao seu nome agora me deixou deveras atordoado.

- O que tem ela?

- É minha mãe. Me chamo Alice Santiago, nasci em 5 de Setembro, há 19 anos, no Recife, lugar para o qual minha mãe voltou grávida após ter passado pela maior decepção de sua vida.

- Não é possível... O que você quer fazer agora?

- O que parece? Quero fazer a tua vontade. Quero lhe dar tudo o que quer: um resquício do prazer que tinha com minha mãe e me ver morta, como deveria estar há tempos.

Então era isso. No final seriamos eu e um corpo naquele quarto impecavelmente organizado em meio a um mundo imundo como nossas almas. Sustentei seu olhar tentando entender o misto de coragem e medo presente neles. Vi a arma descer alguns centímetros por sua face. Alice caminhou, então, decidida até a saída de emergência subindo, nua como estava, para o terraço do local.

Desesperado e aturdido, vesti minhas calças às pressas e segui-a, na esperança de evitar uma tragédia, me certificando antes de levar, por precaução, uma faca que se encontrava sobre a pia, na cozinha. Temia que ela tentasse algo contra mim.

Chegando ao terraço, vi que a arma se encontrava no chão, a meio caminho de Alice. Esta, por sua vez, olhava do alto a cidade.

- Vai se jogar?

- Não. Seria uma morte muito feia.

- E o que seria uma morte bonita? - Respondi, sarcástico.

Ela se virou, me fazendo ver o quão parecida com Isabel ela realmente era - ou seria minha imaginação? -. Caminhou em minha direção, se aproximando de mim e me olhando daquela maneira inexplicável. Tocou minha mão, puxou-a para si levemente e encaixou a faca, a qual eu ainda segurava com força, em seu pescoço.

- Seria se você me matasse.

- Então foi para isso que me procurou? Para fazer seu trabalho sujo?

- Sempre haverá alguém tão sujo quanto o trabalho que queremos que nos façam.

Senti meu coração disparar e todo o sangue de meu corpo ferver. A mão fria de Alice em minha nuca me dava calafrios, contrastando com minha pele quente. Não podia ver vida sob aquela pele branca, nem por trás dos olhos castanhos.

Por um instante, por um décimo de segundo eu tive a certeza de que estaria fazendo bem a ela e a mim. Que seu sangue, derivado do meu, limparia todo o passado sujo e vida medíocre que me perseguiam. Que o asco que eu sentia do mundo sumiria. E que os dias deixariam de ser preto e branco.

Foi esse instante, somado à pressão de sua mão sobre a minha, que lhe deram um fim.

Meus dias em preto e branco repentinamente assumiram um tom de vermelho vivo, vermelho morte. Mantive aquele corpo belo e inerte entre meus braços por mais uns minutos até cair em mim. Pus a faca no bolso da calça, desci até seu apartamento, me lavei e fui para casa na esperança de que o mundo acabasse.

quarta-feira, 17 de abril de 2013

Mais bebê e menos mocinha


6:30

Sara sente que alguém lhe chacoalha delicadamente.

- Acorda, meu bem. Vai se atrasar para o primeiro dia na nova escola!

A garota frequentava o Jardim II e acabara de mudar para uma escola mais próxima de sua nova casa. Se, para uma criança mudar de casa pode parecer novo, de escola mais ainda. Novos colegas, novos professores, novo lanche, novo tudo.

- O Tito pode ir comigo pra escola hoje, Tia?

- Hoje não. Primeiro precisamos conhecer a professora, saber se na escola nova pode levar brinquedo...

Assim, já meio chateada, Sara fingiu escovar os dentes direito - mas só escovou os da frente, pois tinha preguiça - e se dirigiu ao seu café da manhã: um copo grande de leite com café.

- Cadê minha mamadeira?

- A gente já falou sobre isso, Sara. Você já está uma mocinha e grande demais para essas coisas de bebê.

- Mas eu não sei beber no copo, eu derramo.

- Pois aprenda! E trate de tomar esse leite todinho logo ou vamos nos atrasar.

A menina engoliu, junto com o leite e o café doce da tia, o choro e a saudade do conforto de se sentir mais bebê e menos "mocinha".

Não viu nada que achasse especial. A escola tinha cara de escola, a professora, cara de professora e os alunos, cara de alunos. Tudo assim normal e igual. Ela foi levada a frente da turma e apresentada como a "nova coleguinha de vocês" e depois a professora, com seu coque castanho no topo da cabeça, lhe indicou uma cadeira que tinha o tamanho exato de Sara e dos outros pequenos, na qual a garota se acomodou e prestou atenção, quase imóvel e ainda meio assustada, nas palavras que saíam da boca da mulher.

Pintou um desenho que fora mimeografado. Era uma personagem de um filme visto pelos alunos na última aula - Toy Story 3 -. Sara já vira Jessy, que agora recebia cores e mais cores no papel, com direito a chapéu verde, botas azuis e pele vermelha no rosto. Ao passar perto da carteira da menina, a professora, intrigada com as cores no desenho e querendo conhecer melhor a menina que acabara de chegar lhe perguntou?

- Por que o rosto dela está vermelho?

- Porque ela estava no sol.

- E o que ela fazia tanto tempo no sol? - Continuou, abafando um riso pela história da garota.

- Ela foi resgatar seu cavalo que o vilão malvado roubou. - Falou a garota, que já esquecia os lápis e se animava a fazer uma das coisas que mais gostava: inventar histórias. - Ela foi e foi, montada no cavalo que o amigo dela emprestou e, quando ela chegou lá, no deserto, o sol estava muito, muito quente e ela ficou vermelha por isso, depois.

- E ela conseguiu resgatar o cavalo? - A essa altura, quase toda a turma prestava atenção na história da menina nova e professora aproveitava para ver até onde ia a capacidade de criar dessa nova aluna

- Sim. Ela chegou. Lutou com ele, o homem mau. Ele bateu nela, daí. Então ela pegou a arma e atirou na cabeça dele e ele morreu e saiu um monte de sangue e ela salvou o cavalo e fim.

- O que ela fez? - O fim havia surpreendido a todos, mas principalmente à mulher.

- Ela matou ele, ué? Que nem meu pai fez com aquele homem lá. Ele pegou a arma e atirou na cabeça e ele morreu.

O que mais assustava era a naturalidade com que a pequena narrava os fatos, a simplicidade. A morte lhe parecia normal, cotidiana, um assunto tranquilo. A professora, sem saber ao certo o que fazer, disse:

- Chega de histórias por hoje. Termine de pintar seu desenho, Sara.

Texto e personagens criados para "O Maior Prédio do Mundo". Tema: "Dois cavalos, uma longa viagem, um inimigo ao horizonte."

terça-feira, 16 de abril de 2013

Um conforto novo


" Sensação de frio na barriga. Sara nunca havia estado em um elevador antes. Mudar-se de uma casa com enorme quintal, pés de fruta e vizinhos para o 51º andar de um prédio é realmente radical. Ela trazia nas mãos o urso, Tito, que ganhara de aniversário de três anos do pai. Foi nessa ocasião que Sara o vira pela última vez, o que faz com que essa não se lembre exatamente de seu rosto e o fato de a mãe, numa crise de bebedeira, ter atirado fogo em todos os álbuns de fotografia não ajudava em nada.

A porta do elevador se abre. É hora de sair e caminhar até o apartamento de número 504 500. Morar no maior prédio do mundo é realmente assustador, mesmo para uma garota de cinco anos de idade, com toda sua força e imaginação. Ao entrar no apartamento, Sara mal ouviu o que sua tia, Felícia, dizia sobre não sujar o carpete da casa nova e correu para conhecer o que seria seu quarto.

Foi só bater o olho naquele amplo espaço branco - um quarto 2x2 é, com certeza, amplo para quem mal tem um metro de altura - para perceber que poderia ser feliz ali. Pode pensar o quão interessante seria morar num quarto nunca antes habitado por alguém. Ele era seu e ela o faria ser dela.

Acomodou Tito em um canto, de modo que este parecesse confortável, encostou a porta, como costumava fazer quando pretendia dar vazão aos seus sentimentos. Tia Felícia já a conhecia suficientemente bem para não a incomodar nesses momentos, mesmo que Sara gritasse, pedisse por socorro, gargalhasse ou reagisse da mais estranha ou irreverente maneira.

A garota sentou, postando de frente para o urso de pelúcia que era seu maior segredo e disse:

- Quero estar feliz, Tito. Feliz neste novo lugar.

No mesmo instante, brotou de dentro de si um calor que produzia um conforto novo e inexplicável e Sara, no mesmo instante, se imaginou vivendo as maiores e mais plenas alegrias nessa nova fase de sua vida. Imaginou um homem de rosto bonito, parecido com o da capa da revista da Tia, que lhe abraçava e chamava de filha. Lembrou-se da mãe, como só a vira raras vezes, limpa, cheirosa e sorrindo. Nada de bebidas, nem cigarros em suas mãos, mas sim um presente com um cartão que dizia Para Sara, com amor.

Porém, ao dar por si, ela abriu os olhos e encarou o urso profundamente. Tudo aquilo era uma mentira e nunca aconteceria. O choque da realidade produziu o mesmo efeito de um balde de água semi-congelada sendo jogado em sua cabeça - com balde e tudo, é claro!

Da sala, Tia Felícia ouviu os costumeiros gritos enquanto pensava sobre as possíveis reações dos vizinhos. "

Texto e personagens criados para "O Maior Prédio do Mundo". Tema: "Construa uma máquina, capaz de gerar infinitas emoções."

segunda-feira, 15 de abril de 2013

"E, nas palavras rabiscadas no papel sulfite que eu rasgava, que eu queimava, eu me exorcizava. Nelas, eu me escondia e me apagava."

Alice

Conheci Alice há alguns anos. Eu estava, como de costume, sentado naquele café estrategicamente posicionado - próximo aos escritórios do centro da cidade - atulhado de papéis que insistia em levar para casa, como se já não trabalhasse o suficiente durante o dia.

Era ainda cedo, umas 7 da manhã, eu acho, e lá estava eu, saboreando meu café e tentando me concentrar naqueles processos para me desligar dos problemas de casa, que me fazem preferir pagar pela refeição toda manhã só para poder sair uma hora mais cedo e passar uma hora a menos com uma mulher que há muito já não chamo de minha.

Levantei meus olhos por alguns instantes e a vi entrar vagarosamente carregando alguns livros. De imediato, o modo como ajeitou os cabelos já me chamou a atenção. Futuramente eu tentaria me lembrar do momento exato em que apaixonei por ela e, sem dúvida alguma, saberia que foi quando sua mão esquerda passou, desajeitadamente, pelos cabelos soltos, afastando-os e deixando a mostra a orelha pequena e os brincos dourados.

Sentou-se em uma mesa afastada, ao canto, acomodando a pequena biblioteca sobre uma cadeira almofadada. Fez um sinal discreto ao garçom que, de modo eficiente, anotou seu pedido. No breve intervalo até a chegada deste, sorvi o conteúdo restante de minha xícara e me encaminhei ao caixa, com a intenção de me retirar.

Porém, não imaginam o quão surpreendido fiquei ao sentir o toque frio de uma mão macia em meu ombro, seguido de uma delicada voz, mas que continha em si uma certeza e obstinação inconfundíveis.

- Senhor Petreli? Marcos Petreli? - Era ela. Me olhava indagativamente esperando uma confirmação.

- Sim, sou eu. Em que posso ajudá-la...

- Alice. Se o senhor tiver um minuto lhe explicarei. Aceita um café? Mais um? - E sorriu, um sorriso tão simpático, encantador e inocente que não pude deixar de ceder.

Nos encaminhamos para sua mesa, onde dois cafés nos esperavam e me perguntei como ela sabia que eu não iria recusar ao seu convite de me sentar um pouco. Em poucas palavras, de maneira direta, ela me explicou seu caso. Vivera, por anos, a procura do pai biológico de quem pouco se lembrava. Havia alguns meses que o localizara e me procurava, como advogado, para saber que direitos possuía.

Comecei a lhe instruir sobre a pensão e procedimentos legais quando me interrompeu dizendo:

- Não preciso de dinheiro, senhor. Tudo o que quero é o sobrenome a que tenho direito.

Me deixou intrigado tal desejo e, como percebi mais tarde, obsessão. Mas não lhe neguei, novamente. Eu poderia muito bem ter-lhe indicado um advogado competente que costumasse  trabalhar com casos da área familiar, que não era o meu caso, afora eu estar com trabalho mais que o suficiente. Da mesma maneira que ela não procurava dinheiro do pai, não foi por dinheiro que aceitei ajudá-la.

Deixei meu cartão sobre a mesa ao sair, ouvindo a promessa de uma ligação para marcar um encontro formal. Não foi necessário esperar muito. Logo, às 15 horas, recebo um recado de minha secretária, de que uma cliente, Alice Sampaio, com quem falei pela manhã havia me telefonado marcando um jantar às 20 horas no Sapore.

Fosse quem fosse, não aceitaria, mas ela já me enfeitiçara. Saí mais cedo do escritório naquele dia, passando rapidamente por casa para me lavar e, às 19:57, estava eu, em meu carro, esperando ansiosamente em frente a entrada do local.

Quando, às 20:15, eu já pensava ter sido logrado, vejo quem vem, caminhando pela rua vagarosa e elegantemente, dentro de suas meias 7/8 fio 20 e tênis. Pensei comigo sobre já havia visto alguém se vestindo assim e concluí que não. Mas, tendo Alice seus, no máximo, 20 anos, facilmente perdoei a extravagância bela com que se vestia.

Desci do carro, o que fez com que me visse e caminhasse até mim.

- Boa noite

- Boa noite, Alice. Vamos entrar?

- Me perdoe pelo atraso, é que eu estava decidindo se deveria realmente vir. Se o senhor puder, eu preferia conversar em um lugar mais reservado.

- É claro, alguma sugestão?

- Poderia ser em meu apartamento, se não se importa.

Entramos no carro e Alice me guiou até um pequeno prédio, na periferia mal iluminada da cidade, onde subimos dois lances de escada engordurada até chegar a uma porta onde ainda se podia ver o sinal deixado por um número 8, provavelmente de metal, que estivera afixado ali por muito tempo.

A garota destrancou a porta sem muita dificuldade e me indicou a entrada. Muito educadamente entrei, me dirigindo ao interior de um quarto-e-sala minúsculo e cheirando a lavanda. Ao me virar, me deparei com seu rosto bem próximo ao meu e puder ouvir meu coração gritar.

Calmamente, como quem já tinha tudo premeditado, ela disse.

- Era mentira.

Tentei argumentar, mas acontecia exatamente aquilo que eu, inconscientemente, queria: uma garota bonita e jovem se insinuando para mim sem nenhum motivo aparente. Por mais que eu tente me recordar não sou capaz de dizer porque fiz o que fiz. Às vezes, quando penso no assunto em demasia, acredito ser ela a culpada de tudo. A maneira como me olhava, o lugar para o qual me levou, a forma como tocou em meu ombro naquela manhã, tudo me levara àquilo.

Agora, sentado nesta sala fria e vazia, vejo o noticiário sensacionalista que mostra a foto da garota encontrada há anos nua e sem vida na terraço de um pequeno prédio na periferia mal iluminada da cidade.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

Quem sabe?

E, foi só eu sair
Eu atravessar
Pra ela sumir

E, foi só eu chegar
Querer me divertir
Foi só eu surgir

Quem sabe um dia eu possa te encontrar de novo, maybe
Quem sabe um dia a gente esbarra um no outro
Quem sabe um dia eu possa te encontrar de novo, maybe
Quem sabe então era pra ser...

E, quando o amor chegar
Que um dia ele vem
Eu venho também

E, se a escuridão passar
E o dia clarear
Quem sabe, meu bem?

E, se um dia eu sair
Só pra vadear
Por que você não vem?

Quem sabe então a gente era um pro outro, maybe
Quem sabe então era pra ser...

E, quando eu  me for
Você vai saber
Que foi só por você

E, enquanto o tempo passar
Você pode estar...

quarta-feira, 10 de abril de 2013

Pressa

Pressa, pressa, pressa. Tanta coisa para fazer!

Chego naquela velocidade de sempre, de quem nem corre nem anda, e me apresso a guardar minhas coisas. Me incomoda, principalmente quando tenho muito a fazer, ver tudo fora do lugar. Então, pus logo a bolsa no guarda-roupas, arrumei minha cama que ainda estava por fazer. Fora um longo dia de trabalho que estava longe de acabar.

Já tirava os sapatos e separava uma roupa confortável para vestir quando olhei pela janela, coisa que sempre faço na verdade, posto que do terceiro andar já se tem uma visão levemente privilegiada do mundo, e percebi que chovia.

Foi quando parei. Estaquei. Coloquei a cabeça para fora e respirei bem fundo aquele cheiro que é um dos mais maravilhosos do mundo: o de terra molhada. Nesse momento, se apossou de mim uma vontade plena de estar naquela chuva fraca, de ser parte dela, de não ter pressa ou coisas a fazer. Uma vontade de ser mais eu, mais chuva, que cai e molha, que mata e faz viver, que trás e leva tantas sensações e vontades.

"Quero tomar banho de chuva!"

"Então vamos."

Mas, foi só eu descer as escadas e atravessar a rua, em direção a praça, para a chuva, de pirraça, parar de cair. Parecia até que queria se divertir comigo, me seduzindo e me deixando só na vontade.

"Cadê a chuva?"

"Foi embora, já."

Só me restou, afinal, esse banho de chuveiro quente pois já voltava eu a ser fria. A pressa me esfria, o dia-a-dia me esfria, as pequenas decepções cotidianas também. E esse banho que escorre quente pela minha pele que se arrepia com o vento que entra pela janela aberta não me aquece, não me conforta.

O tempo tem me deixado fria. Esses pequenos momentos, essas chuvas que me fazem querer ser chuva são minha salvação diária. E um banho quente pode tentar ajudar. Ele faz o que pode, enfim.

Do dia de hoje só espero mais três coisas, então: poder estudar por algumas horas, um bom cappuccino e uma visita, ao final.

E que a minha frialdade me deixe.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

Acho que gosto do simples.

Do básico, do fácil, do nada formal. Gosto do "vamos assim mesmo", do decidir em cima da hora, do improvisado. Gosto também, e muito, do contato, do abraço, do beijo, não do beijo falado, mas do beijo dado. Qual a lógica de se despedir de alguém que está ali do teu lado dizendo: "um beijo"? Beije-o de uma vez, abrace-o, se é o que quer! É tão simples, tão fácil, tão natural que nos esquecemos de como é. O sorrir, o chorar, o se importar. O "me desculpe", o "por favor", o "obrigado" ficaram lá na parede do jardim de infância, naquele quadro que ensinava as palavras mágicas? Cadê a humanidade dentro da humanidade?

sexta-feira, 5 de abril de 2013

É como quando se tem algo para dizer.

Mas não encontra palavras boas o suficiente para isso. Então você fica ali, olhando para o outro enquanto ele te olha. E você pode sentir as palavras ocupando espaço no fundo da garganta, só que elas não saem porque, na verdade, você sabe que, apesar de elas ocuparem um espaço danado, não estão prontas para sair. E é nesse momento que você se pergunta se o outro também tem palavras crescendo no fundo da garganta e, se sim, se as cultiva para dizer num futuro próximo, ou se as tentar engolir forçadamente. Você espera secretamente que ele pense como você, mas não pode ter certeza disso. Talvez ele veja o esforço que você está fazendo para não deixar as palavras escaparem antes da hora, ou talvez não seja tão como pensa. E, para tentar tornar mais simples o que, de tão simples, é complicado, você sorri, para que ele sorria de volta e coloque um ponto final nesse momento. 

Ponto final para esse momento não é ponto final para a minha história inteira, mas também não é uma vírgula já que esta indica um breve espaço de tempo. Eu diria que é, com relação ao todo, um ponto e vírgula, um belo meio-termo.

e fim por hoje;

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Curioso

Como tenho quisto o novo, e vejo os outros querendo também. E tão curioso quanto é como o novo não me satisfez. É como se o errado seduzisse bem, mas não soubesse o que fazer com isso depois. Agora, só me resta um cheiro forte e desagradável de fumaça e a vontade de continuar sendo eu.

Quantas vezes você disse não, quando na verdade queria um sim, mas teve medo?