segunda-feira, 22 de abril de 2013

Ao me virar...


 ...me deparei com seu rosto bem próximo ao meu e pude ouvir meu coração gritar.

Calmamente, como quem já tinha tudo premeditado, ela disse.

- Era mentira.

- O que?

- Não importa. Acho que já sabe porque o trouxe até aqui.

Na verdade, não sabia. Eu apenas podia imaginar mas não tinha certeza de que não era só a minha vontade agindo sobre mim.

Ela me olhou profundamente nos olhos, de uma maneira nova, única. Sorriu por um breve instante e se retirou em direção à cama. O que aconteceu depois foi um misto de luxúria, curiosidade e deleite.

Deitado ao lado de Alice naquela cama, olhando o teto sujo do quarto simples me senti renovado de uma maneira que lembrou casos passados. Me virei para lhe dar mais um beijo e vi que trazia lágrimas nos olhos. Não pude entender o que havia. Estava me sentando e me preparando para lhe indagar sobre quando lentamente abriu a gaveta do criado-mudo que estivera até então cumprindo bem seu papel em um canto e retirou um lustroso revólver.

Da mesma maneira, se pôs de pé e o posicionou comodamente na têmpora direita.

- O que está fazendo?

- Eu disse que era mentira.

- O que era mentira? Você é maluca?

- Isabel Santiago. Se lembra?

Tinha uma ideia vaga do nome, ela não passou de um de meus casos. Insistia que estava grávida e desapareceu após o primeiro maço de notas e pedido de aborto. Na minha opinião, não passava de uma vagabunda, mas a menção ao seu nome agora me deixou deveras atordoado.

- O que tem ela?

- É minha mãe. Me chamo Alice Santiago, nasci em 5 de Setembro, há 19 anos, no Recife, lugar para o qual minha mãe voltou grávida após ter passado pela maior decepção de sua vida.

- Não é possível... O que você quer fazer agora?

- O que parece? Quero fazer a tua vontade. Quero lhe dar tudo o que quer: um resquício do prazer que tinha com minha mãe e me ver morta, como deveria estar há tempos.

Então era isso. No final seriamos eu e um corpo naquele quarto impecavelmente organizado em meio a um mundo imundo como nossas almas. Sustentei seu olhar tentando entender o misto de coragem e medo presente neles. Vi a arma descer alguns centímetros por sua face. Alice caminhou, então, decidida até a saída de emergência subindo, nua como estava, para o terraço do local.

Desesperado e aturdido, vesti minhas calças às pressas e segui-a, na esperança de evitar uma tragédia, me certificando antes de levar, por precaução, uma faca que se encontrava sobre a pia, na cozinha. Temia que ela tentasse algo contra mim.

Chegando ao terraço, vi que a arma se encontrava no chão, a meio caminho de Alice. Esta, por sua vez, olhava do alto a cidade.

- Vai se jogar?

- Não. Seria uma morte muito feia.

- E o que seria uma morte bonita? - Respondi, sarcástico.

Ela se virou, me fazendo ver o quão parecida com Isabel ela realmente era - ou seria minha imaginação? -. Caminhou em minha direção, se aproximando de mim e me olhando daquela maneira inexplicável. Tocou minha mão, puxou-a para si levemente e encaixou a faca, a qual eu ainda segurava com força, em seu pescoço.

- Seria se você me matasse.

- Então foi para isso que me procurou? Para fazer seu trabalho sujo?

- Sempre haverá alguém tão sujo quanto o trabalho que queremos que nos façam.

Senti meu coração disparar e todo o sangue de meu corpo ferver. A mão fria de Alice em minha nuca me dava calafrios, contrastando com minha pele quente. Não podia ver vida sob aquela pele branca, nem por trás dos olhos castanhos.

Por um instante, por um décimo de segundo eu tive a certeza de que estaria fazendo bem a ela e a mim. Que seu sangue, derivado do meu, limparia todo o passado sujo e vida medíocre que me perseguiam. Que o asco que eu sentia do mundo sumiria. E que os dias deixariam de ser preto e branco.

Foi esse instante, somado à pressão de sua mão sobre a minha, que lhe deram um fim.

Meus dias em preto e branco repentinamente assumiram um tom de vermelho vivo, vermelho morte. Mantive aquele corpo belo e inerte entre meus braços por mais uns minutos até cair em mim. Pus a faca no bolso da calça, desci até seu apartamento, me lavei e fui para casa na esperança de que o mundo acabasse.

4 comentários:

Pedro Henrique disse...

Sinto uma certa inspiração muito forte provinda desse texto, como se uma energia nova tivesse uma fronteira e agora mesclasse com a sua dando luz a algo novo, vivo e quente como o sangue que escorre desse texto!

Lindo! Lindo Fleur! *-*
Espero mesmo que um dia possa ver um livro seu numa prateleira de uma biblioteca, pelo menos por alguns instantes enquanto um novo olhar interessado o acolhe até uma nova casa! Haha

Abraços e continue assim!

PedrodeAmolar

Jéssica Marques disse...

Jura? *--*

Pedro Henrique disse...

Sim Senhorita, pode apostar que sim! Haha

=D

Jéssica Marques disse...

(: Acho que teremos que esperar alguns anos haha