quarta-feira, 17 de abril de 2013

Mais bebê e menos mocinha


6:30

Sara sente que alguém lhe chacoalha delicadamente.

- Acorda, meu bem. Vai se atrasar para o primeiro dia na nova escola!

A garota frequentava o Jardim II e acabara de mudar para uma escola mais próxima de sua nova casa. Se, para uma criança mudar de casa pode parecer novo, de escola mais ainda. Novos colegas, novos professores, novo lanche, novo tudo.

- O Tito pode ir comigo pra escola hoje, Tia?

- Hoje não. Primeiro precisamos conhecer a professora, saber se na escola nova pode levar brinquedo...

Assim, já meio chateada, Sara fingiu escovar os dentes direito - mas só escovou os da frente, pois tinha preguiça - e se dirigiu ao seu café da manhã: um copo grande de leite com café.

- Cadê minha mamadeira?

- A gente já falou sobre isso, Sara. Você já está uma mocinha e grande demais para essas coisas de bebê.

- Mas eu não sei beber no copo, eu derramo.

- Pois aprenda! E trate de tomar esse leite todinho logo ou vamos nos atrasar.

A menina engoliu, junto com o leite e o café doce da tia, o choro e a saudade do conforto de se sentir mais bebê e menos "mocinha".

Não viu nada que achasse especial. A escola tinha cara de escola, a professora, cara de professora e os alunos, cara de alunos. Tudo assim normal e igual. Ela foi levada a frente da turma e apresentada como a "nova coleguinha de vocês" e depois a professora, com seu coque castanho no topo da cabeça, lhe indicou uma cadeira que tinha o tamanho exato de Sara e dos outros pequenos, na qual a garota se acomodou e prestou atenção, quase imóvel e ainda meio assustada, nas palavras que saíam da boca da mulher.

Pintou um desenho que fora mimeografado. Era uma personagem de um filme visto pelos alunos na última aula - Toy Story 3 -. Sara já vira Jessy, que agora recebia cores e mais cores no papel, com direito a chapéu verde, botas azuis e pele vermelha no rosto. Ao passar perto da carteira da menina, a professora, intrigada com as cores no desenho e querendo conhecer melhor a menina que acabara de chegar lhe perguntou?

- Por que o rosto dela está vermelho?

- Porque ela estava no sol.

- E o que ela fazia tanto tempo no sol? - Continuou, abafando um riso pela história da garota.

- Ela foi resgatar seu cavalo que o vilão malvado roubou. - Falou a garota, que já esquecia os lápis e se animava a fazer uma das coisas que mais gostava: inventar histórias. - Ela foi e foi, montada no cavalo que o amigo dela emprestou e, quando ela chegou lá, no deserto, o sol estava muito, muito quente e ela ficou vermelha por isso, depois.

- E ela conseguiu resgatar o cavalo? - A essa altura, quase toda a turma prestava atenção na história da menina nova e professora aproveitava para ver até onde ia a capacidade de criar dessa nova aluna

- Sim. Ela chegou. Lutou com ele, o homem mau. Ele bateu nela, daí. Então ela pegou a arma e atirou na cabeça dele e ele morreu e saiu um monte de sangue e ela salvou o cavalo e fim.

- O que ela fez? - O fim havia surpreendido a todos, mas principalmente à mulher.

- Ela matou ele, ué? Que nem meu pai fez com aquele homem lá. Ele pegou a arma e atirou na cabeça e ele morreu.

O que mais assustava era a naturalidade com que a pequena narrava os fatos, a simplicidade. A morte lhe parecia normal, cotidiana, um assunto tranquilo. A professora, sem saber ao certo o que fazer, disse:

- Chega de histórias por hoje. Termine de pintar seu desenho, Sara.

Texto e personagens criados para "O Maior Prédio do Mundo". Tema: "Dois cavalos, uma longa viagem, um inimigo ao horizonte."

6 comentários:

Laina Foleto disse...

Nossa que fim inesperado e tadinha da Sara =S
http://blogmocafina.blogspot.com.br/
Beijo

Jéssica Marques disse...

haha pois é...

Vozes ao Vazio disse...

Excelente! :)

Jéssica Marques disse...

Obrigada, Presley :D

Juliana Caulo disse...

Eu achando que eia ser uma historinha super fofa, daquelas com lição de moral, me surpreendi com esse desfecho.Parabéns pelo texto

http://capuccinocomleitura.blogspot.com

Jéssica Marques disse...

haha

Agora fico me perguntando: surpresa é bom?