sexta-feira, 31 de maio de 2013

Conversa vazia

"cabeça vazia de prazer, cheia de dúvida e de vontade de fazer qualquer loucura que pareça aventura.
Qualquer experiência que altere o estado de consciência.
E que te dê a sensação de que você não tá perdido.
Que alguém te dá ouvidos. Que a vida faz sentido!"
Gabriel o Pensador

Sai mais uma noite pelas ruas. Mais uma vida arriscada, perdida? Não sei, quem sabe... "Vai, corre mais!" Não tem perigo, não é? Você precisa do perigo, ou acha que precisa. Bebe e a bebida não lhe sobe à cabeça e você bebe mais, mais, mais... Nunca chega. Nada chega. Os gritos, latidos, o barulho do acelerador, a música, muita música, boa, ruim, alta! É nela que você extravasa. Tão jovem e tão cansado da vida e de uma vida sem vida, sem sentido e sentimentos. Excesso de sentimentos mal sentidos e não correspondidos. A prateleira do quarto cheia de remédios, a vida de tédio, as ligações, o silêncio que vem do corredor. A bebida, o cigarro e os remédios: tudo de uma vez me desce pela garganta. Me espanta. Acho que sou forte. Acho que não sei de mais nada. Acho que preciso sair de novo.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

É só uma data.

É só uma data. Repeti isso para mim. Só uma data. E me obriguei a não dar importância alguma a isso.

sexta-feira, 24 de maio de 2013

Completamente normal para mim.


Não um normal ruim,
só um normal você.
Alguém que é assim, e não tem que se curar, ou se tratar,
que vê as coisas do seu jeito e gosta ou não.
O normal não é igual, não é perfeito, só é você.

quinta-feira, 23 de maio de 2013

Ficar quieta e não desobedecer a pessoa adulta.

São 11:45 e Sara sai da escola. Estranha não ver, de cara, Tia Felícia que sempre a espera no portão, sombrinha aberta e posicionada sobre a cabeça para protegê-las do Sol.

- Sara! - Era Ana, uma vizinha do prédio. - Tua Tia me pediu para levá-la para casa hoje, tudo bem?

A garota apenas gesticulou positivamente e acompanhou a quase desconhecida, afinal já estava mais do que acostumada a ter que ficar com outras pessoas. Quando morava ainda com a mãe, esta vivia saindo à noite, às vezes durante o dia também, dizendo que ia trabalhar. Sara só tinha que ficar quieta e não desobedecer a pessoa adulta que iria ficar vendo TV na sala.

Chegando ao prédio, Dona Ana fez questão de subir com a menina até o andar onde esta vivia, mal sabia ela que Sara podia muito bem se virar sozinha, mas a garota nada disse, seguiu exatamente o protocolo de ser cuidada por estranhos: ficar quieta e obedecer.

Ao entrar no apartamento, percebeu logo que havia algo de estranho, diferente. Tia Felícia estava sentada no sofá, tão ereta quanto podia, no colo, um pires e uma xícara com café que esfriava. A forma como os dois e alvos sofás da pequena sala estavam dispostos, um de frente para o outro, não permitiu que a garota percebe-se instantaneamente quem era  o homem para o qual a tia lançava olhares nervosos, intercalados pelos que se dirigiam a Sara.

Foi quando ele percebeu e se virou, sem se levantar ou se mexer muito, trazendo nos lábios o conhecido sorriso de malícia:

- Oi, filha!

Texto e personagens criados para "O Maior Prédio do Mundo". Tema: "Um homem congelado revive."

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Bobo

Entre todos, você vem até mim
porque é um bobo.
A mim, eu que não sei sequer a diferença entre o eu e o mundo.
Eu que mal penso e falo, mal escuto e acho que sei.
E por quê?
Porque é um imbecil
e não sabe o trabalho que vai ter,
as crises que vai ver.
Não sabe da falta de lógica do meu pensar,
sentir, agir, falar.
Não sabe de nada, idiota!
Nem da coragem que tem em aceitar mesmo assim.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

All the days are life, and all the stars are light.

E todos os dias são bonitos, é só saber para onde olhar.

Percebi isso há pouco tempo quando, pela manhã, olhei pela janela do meu quarto e vi o Sol, vi a chuva, a neblina acinzentada, vi cada dia com seu mistério e beleza. Vi cada detalhe importando tanto quanto o que eu julgava ser importante. Enxerguei o mundo maior e quanto mais eu olho mais diminuo. Não quero mais me permitir viver dias ruins, nem ficar me lembrando do que não fiz. Talvez eu ainda mude de ideia, mudo tanto e o tempo todo, mas por ora está bom!

segunda-feira, 13 de maio de 2013

O foda

O foda é que ainda dói. Eu ainda sinto uma pontada importuna aqui no peito só de pensar em um nome. O foda, o foda mesmo, é que eu poderia muito bem estar bem. Eu não sei se quero. Não sei o que quero e como quero. Não sei fazer passar a dor, não sei se ela vai passar um dia. Não sei fazer os sonhos pararem, não sei me desfazer do que tenho, não consigo mudar nada. Não passou, só mudou um pouco, mas não passou. Ainda está aqui. São outras circunstâncias, é outro o momento e tem mais de mim nisso do que em qualquer outra coisa, mas não passa. Não sei fazer passar. E o foda é que ainda dói. Dói sempre.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

Ode ao cinza


O cinza! O cinza esconde todas as cores embaixo da neblina cinza.
Ah! O cinza...
Domina, impõe, se mostra cinza.

Atrás do cinza tem o azul do céu,
o verde da grama,
a gama de cores dos prédios, que não é cinza.

Mas o cinza, só o cinza é cinza!
Só o cinza cobre
o cinza amarelo, o cinza azul, o cinza nobre!

quinta-feira, 9 de maio de 2013

Esfregar, lustrar, limpar.


Café. É só mais uma manhã que começa do mesmo jeito. Sara ainda dorme sua inocência em sonhos, mas Felícia há muito já está acordada. Tem tanto a fazer, tanta roupa para lavar, passar e dobrar, tanto chão para limpar e café para fazer.

Felícia nunca se casou. Ao longo de seus 33 anos teve apenas um namorado, durante o Ensino Médio. Felícia viu tantos relacionamentos fracassarem a sua volta que não quis mais nada para si. Talvez ela tenha nascido para isso, era o que pensava quando se pegava olhando com o canto do olho para o porteiro do prédio, Senhor Omar, viúvo, dois filhos. "Deixe de besteira, mulher! Já passou do tempo para esse tipo de coisa." Ela se forçava a pensar e voltava a esfregar, lustrar, limpar.

Há 5, quase 6 anos, Felícia tinha um único propósito na vida: Não permitir que Sara se tornasse como a mãe. Agora, após todo esse tempo, ela começava a entender que a menina jamais seria como Verônica, sua irmã. Pessoas são diferentes umas das outras, reagem de formas diversas às mesmas situações.

Agora, sentada na cozinha impecavelmente limpa e tomando o café que acabara de passar, Felícia se lembrava de seus 12 anos, quando a mãe lhe anunciou que teria uma irmãzinha.

- Uma irmã? Menina mesmo, mãe?

Apesar da diferença de idade, Felícia ficou muito feliz por ter, finalmente, uma companhia feminina. Era, até então, a única garota entre os quatro filhos do casal, que vivia na zona rural de uma pequena cidade do interior. Desde cedo, Felícia aprendera a ajudar nos afazeres, tanto de casa, quanto do sítio, quando necessário. Seus irmãos, todos mais velhos, trabalhavam desde muito pequenos na plantação e era dever de Felícia levar suas refeições, e também do pai, até eles todos os dias.

Porém, era perceptível que as coisas não iam nada bem. A qualidade era a mesma, porém a quantidade de comida que ia no prato de cada um diminuía a cada dia. Dos quatro, e futuramente cinco filhos, Felícia era a única que ainda estudava. Gostava muito de fazê-lo e prometera aos pais que não deixaria de ajudá-los e que os estudos atrapalhassem isso. Felícia via, percebia. Os irmãos saindo da escola logo após aprenderem a ler, os pais analfabetos e a comida que diminuía a cada dia. O mundo estava mudando, dizia a professora, era necessário saber, aprender.

Foi quando o pai chegou em casa com a notícia: vamos nos mudar. Apesar de já entender das coisas, ninguém quis contar muito a filha acerca dos motivos que os fizera ir morar num bairro, casinha simples, da pequena cidade. Felícia não reclamou, gostava da ideia de ir andando até o colégio, de levar as refeições ao pai e os irmãos, que trabalhavam na construção de um prédio.

O tempo passou, Verônica nasceu, matando sua mãe, nas duras palavras do pai, que nunca perdoou a menina. Foi quando Felícia se tornou mãe pela primeira vez. Não é fácil criar um filho com 13 anos de diferença para a idade dele, mas ela tentou. Bem que tentou e ainda tenta, talvez.

Verônica não era como ela, não pensava como ela e foi fácil perceber. São tantos os motivos, tantas as histórias, e o café esfria em sua mão, em meio a cozinha impecavelmente limpa. Lágrimas lhe vêm aos olhos. "Onde estará aquela garota desastrada uma hora dessas?" Há meses não tinha notícia da irmã e isso era preocupante. Na última vez que a vira, estava saindo de casa, levando Sara e prometendo voltar logo. A menina foi localizada após a ligação de um policial que dizia que ela estava na praça, sozinha, esperando pela mãe. E de Verônica ninguém tinha nem notícias. Foi quando a garota veio, definitivamente, morar com a tia e Felícia se tornou mãe pela segunda vez.

- Bom dia? - Disse a pequena voz na porta da cozinha.

- Oh! Bom dia, meu amor, já ia te chamar para ir para a escola. - Falou, caminhando em direção a pia, ocultando assim as poucas lágrimas da manhã. - Vá escovar os dentes que vou arrumar teu leite.

Dito isso, olhou para trás e viu aqueles olhos tão iguais aos de Verônica e ao mesmo tempo tão diferentes, olhos que haviam visto tanto e sabiam de tão pouco. Olhos que não conheciam nem metade da história.

Texto e personagens criados para "O Maior Prédio do Mundo". Tema: "Tudo sabe, tudo vê."

terça-feira, 7 de maio de 2013

Sabe quando...

...as bochechas doem e você continua sorrindo?

Teto. Escuro. Não tão escuro porque posso ver. Vejo o teto. Fecho e abro os olhos continuamente. Tenho sono, mas dormir seria perda de tempo. Tenho muito o que fazer, preciso ficar com você, que dorme, diz que não, mas dorme. E dorme um sono tão leve, tão gostoso, tão confortável. O que acontece nesse sono? É muita intromissão perguntar. Então só me resta mesmo olhar para o teto, sorrir e tentar dormir. Dormir. O que acontece nesse sono?

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Uma Coca-cola com Você


é ainda melhor que uma viagem a San Sebastian, Irun,Hendaye, Biarritz, Bayonne 
ou que ficar enjoado na Travessera de Gracia em Barcelona 
em parte porque nessa camisa laranja você parece um São Sebastião melhor e mais feliz 
em parte porque eu gosto tanto de você, em parte porque você gosta tanto de iogurte 
em parte por causa das tulipas laranja florescente contra a casca branca das árvores 
em parte pelo segredo que nos vem ao sorriso perto de gente e de estatuária 
é difícil quando estou com você acreditar que existe alguma coisa tão parada 
tão solene tão desagradável e definitiva como estatuária quando bem na frente delas 
na luz quente de Nova York às quatro da tarde nós estamos indo e vindo 
de um lado para o outro como a árvore respirando pelos olhos de seus nós

e a exposição de retratos parece não ter nenhum rosto, só tinta 
de repente você se surpreende que alguém tenha se dado ao trabalho de pintá-los 
olho pra você e prefiro de longe olhar para você do que para todos os retratos do mundo 
exceto talvez às vezes o Cavaleiro Polonês que de qualquer maneira está no Frick 
aonde graças a Deus você nunca foi de modo que eu posso ir junto com você a primeira vez 
e isso de você se mover tão bonito mais ou menos dá conta do Futurismo 
assim como em casa nunca penso no Nu Descendo a Escada ou 
num ensaio em algum desenho de Leonardo ou Michelangelo que costumava me deslumbrar 
e o que adianta aos Impressionistas tanta pesquisa 
quando eles nunca encontraram a pessoa certa para ficar perto de uma árvore quando o sol baixava 
ou por sinal Marino Marini que não escolheu o cavaleiro tão bem quanto o cavalo                 
acho que eles todos deixaram de ter uma experiência maravilhosa 
que eu não vou desperdiçar por isso estou te contando

                                                               Frank O'Hara                                            
(tradução de Luiza Franco Monteiro)

sexta-feira, 3 de maio de 2013

- Mas eu estou feliz!

- Você não parece feliz.
- Estou feliz aqui no fundo.
- Mas eu gosto quando transborda!

quinta-feira, 2 de maio de 2013

Por que, por vezes, insisto em fingir que não me importo quando, na verdade é tão importante para mim? Por que, quase que o tempo todo, eu faço que não ligo, faço que não vejo, não entendo, não percebo aquilo que me acerta em cheio? Eu não me entendo, não me entendo mesmo! Talvez eu só queira que os outros não se importem tanto, mas o fato é que o mundo liga, o mundo liga sim. Ele olha o que você veste, vê com o que se parece, como se porta, o que ouve, o que lê. Alguém sabe se ele sabe o que eu sou? O que eu penso? Não sabe, não. Nem quer saber! Ele não se importa mesmo. Então eu não deveria me importar e essa é a verdade. Agora tenho que me convencer disso.

Rio de Janeiro

Eu rio de Janeiro,
de Abril, Março e Fevereiro.
Eu rio, rio de Janeiro.
Eu rio do ano inteiro!