quinta-feira, 9 de maio de 2013

Esfregar, lustrar, limpar.


Café. É só mais uma manhã que começa do mesmo jeito. Sara ainda dorme sua inocência em sonhos, mas Felícia há muito já está acordada. Tem tanto a fazer, tanta roupa para lavar, passar e dobrar, tanto chão para limpar e café para fazer.

Felícia nunca se casou. Ao longo de seus 33 anos teve apenas um namorado, durante o Ensino Médio. Felícia viu tantos relacionamentos fracassarem a sua volta que não quis mais nada para si. Talvez ela tenha nascido para isso, era o que pensava quando se pegava olhando com o canto do olho para o porteiro do prédio, Senhor Omar, viúvo, dois filhos. "Deixe de besteira, mulher! Já passou do tempo para esse tipo de coisa." Ela se forçava a pensar e voltava a esfregar, lustrar, limpar.

Há 5, quase 6 anos, Felícia tinha um único propósito na vida: Não permitir que Sara se tornasse como a mãe. Agora, após todo esse tempo, ela começava a entender que a menina jamais seria como Verônica, sua irmã. Pessoas são diferentes umas das outras, reagem de formas diversas às mesmas situações.

Agora, sentada na cozinha impecavelmente limpa e tomando o café que acabara de passar, Felícia se lembrava de seus 12 anos, quando a mãe lhe anunciou que teria uma irmãzinha.

- Uma irmã? Menina mesmo, mãe?

Apesar da diferença de idade, Felícia ficou muito feliz por ter, finalmente, uma companhia feminina. Era, até então, a única garota entre os quatro filhos do casal, que vivia na zona rural de uma pequena cidade do interior. Desde cedo, Felícia aprendera a ajudar nos afazeres, tanto de casa, quanto do sítio, quando necessário. Seus irmãos, todos mais velhos, trabalhavam desde muito pequenos na plantação e era dever de Felícia levar suas refeições, e também do pai, até eles todos os dias.

Porém, era perceptível que as coisas não iam nada bem. A qualidade era a mesma, porém a quantidade de comida que ia no prato de cada um diminuía a cada dia. Dos quatro, e futuramente cinco filhos, Felícia era a única que ainda estudava. Gostava muito de fazê-lo e prometera aos pais que não deixaria de ajudá-los e que os estudos atrapalhassem isso. Felícia via, percebia. Os irmãos saindo da escola logo após aprenderem a ler, os pais analfabetos e a comida que diminuía a cada dia. O mundo estava mudando, dizia a professora, era necessário saber, aprender.

Foi quando o pai chegou em casa com a notícia: vamos nos mudar. Apesar de já entender das coisas, ninguém quis contar muito a filha acerca dos motivos que os fizera ir morar num bairro, casinha simples, da pequena cidade. Felícia não reclamou, gostava da ideia de ir andando até o colégio, de levar as refeições ao pai e os irmãos, que trabalhavam na construção de um prédio.

O tempo passou, Verônica nasceu, matando sua mãe, nas duras palavras do pai, que nunca perdoou a menina. Foi quando Felícia se tornou mãe pela primeira vez. Não é fácil criar um filho com 13 anos de diferença para a idade dele, mas ela tentou. Bem que tentou e ainda tenta, talvez.

Verônica não era como ela, não pensava como ela e foi fácil perceber. São tantos os motivos, tantas as histórias, e o café esfria em sua mão, em meio a cozinha impecavelmente limpa. Lágrimas lhe vêm aos olhos. "Onde estará aquela garota desastrada uma hora dessas?" Há meses não tinha notícia da irmã e isso era preocupante. Na última vez que a vira, estava saindo de casa, levando Sara e prometendo voltar logo. A menina foi localizada após a ligação de um policial que dizia que ela estava na praça, sozinha, esperando pela mãe. E de Verônica ninguém tinha nem notícias. Foi quando a garota veio, definitivamente, morar com a tia e Felícia se tornou mãe pela segunda vez.

- Bom dia? - Disse a pequena voz na porta da cozinha.

- Oh! Bom dia, meu amor, já ia te chamar para ir para a escola. - Falou, caminhando em direção a pia, ocultando assim as poucas lágrimas da manhã. - Vá escovar os dentes que vou arrumar teu leite.

Dito isso, olhou para trás e viu aqueles olhos tão iguais aos de Verônica e ao mesmo tempo tão diferentes, olhos que haviam visto tanto e sabiam de tão pouco. Olhos que não conheciam nem metade da história.

Texto e personagens criados para "O Maior Prédio do Mundo". Tema: "Tudo sabe, tudo vê."

5 comentários:

Pedro Henrique disse...

Por um acaso você fez uma conexão com essa postagem, fez?

http://fleur-du-matin.blogspot.com.br/2012/01/voce-nao-quer-brincar.html

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PedrodeAmolar

Jéssica Marques disse...

São todos trechos de uma mesma história, contados de uma maneira meio bagunçada.

Pedro Henrique disse...

Praticamente uma pesca de histórias ao vento! =D
Muito boa sua sacada de deixar a história em aberto! Haha

Jéssica Marques disse...

Gosto de falar do real, do possível, do "vivível" e essas histórias estão sempre em aberto.

Vozes ao Vazio disse...

*_*