quinta-feira, 27 de junho de 2013

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Almoço

Seria como outro qualquer. Entrei, devagar, no restaurante, chacoalhando minha sombrinha um pouco molhada pela chuva fraca e insistente do dia. Procurei uma mesa desocupada, o que não demorei a avistar. O lugar estava meio cheio - ou meio vazio, dependendo da filosofia tomada como base. Atravessei o pequeno salão, indo me sentar em uma mesa pequena na parede oposta.

Me sentei. Olhei ao redor. Vi. Um palhaço almoçando sozinho numa mesa central. Palhaço. Sozinho. Confesso que fui tomada pelo desejo de sentar-me com ele mas o contive, afinal não sabia se seria bem vista em tal atitude.

Minha fome me fez esquecer do palhaço por alguns minutos e eu almocei. Feito, me levantei para ver o que tinha de sobremesa e percebi que ele se encaminhava para o caixa. Parei disfarçadamente - eu acho! - para observá-lo mais um pouco: cerca de 60 anos, acredito, baixo, levemente encorpado, olhar de palhaço.

Pagou a conta com mais de 20 moedas enquanto a cobradora o indagava sobre seu trabalho.

- Eu vendo... - não consegui ouvir.

- Ah! Achei que fizesse divulgação para alguma loja.

Vende. Voltei para minha mesa. Me sentei. Ele saia. Pegou um carrinho com várias coisas coloridas não identificadas que estava estacionado na porta e saiu empurrando-o. Me olhou. Fez cara de sorriso contido, provocador, com olhinhos diminuídos e boca retraída. Ele me viu.

Terminei de comer. Paguei. Saí. A chuva tinha dado uma trégua. Segui por menos de um quarteirão e o avistei, do outro lado da rua, vendendo suas cores. Ele me olhou, fez sinal para que eu fosse até ele. Fiquei sem saber o que fazer. Ele insistiu. Sorri. Fui.

- Me dá o teu sorriso e leva o meu para casa!

Dizendo isto, me mostrou uma espécie de brinquedo, um boneco simples feito de bexiga e farinha com mais alguns apetrechos. Modelou-o de modo que sorrisse, depois fizesse uma expressão zangada, em seguida lhe deu um bico de pato, antes de transformá-lo em mola. Esticava, soltava, puxava com a maior facilidade. Ao perceber meu interesse me disse o preço.

- Tem cor-de-rosa choque também!

- Mas vou querer o azul.

Paguei por um boneco que, materialmente, não valia metade do preço, mas trazia junto um sorriso. Sorriso de palhaço.

segunda-feira, 17 de junho de 2013

Me prendi.

Me perdi. Não sei mais sentir, falar, ouvir. Não vejo mais a mim. E essa minha constante e insistente tentativa de fuga só prova mais e cada vez mais que não sei mais como agir. Deixei de ser um deles e me tornei uma de mim, que não se sente confortável nas mentiras, conversas sem sentido e coisa e tal.

Falsa timidez. Tem me ajudado. Ficar calada. Mas ela sabe. Ela sabe muito bem.

No fim da festa, eu me despedida, no meu modo pseudo-tímido de ser. Ela não foi a primeira, ou última, mas não era só mais uma.

Me abraçou com força e vontade, foi tão bom. Eu pensei em sair mas seu abraço me puxava e eu queria ser puxada. Senti sua pequenez que, através das gerações, me chegou em parte. Ao desvincilhar-me de seus braços pensei no quanto já sentiram, quantos foram os abraços e os dias de trabalho, quantos foram os filhos que lhe pediram colo e quantas vezes precisou negar, por motivos que agora lhe parecem sem sentido.

Ela me olhou nos olhos e eu vi tanta beleza e verdade neles que fiquei paralisada. Como pude pensar que não sou daqui? Que não vim desses olhos e braços, também?

- Fique bem. - Ela disse. - Eu te amo.

É complicado tentar explicar um sentimento tão bom e confuso. Ela disse "fique", mas não "fique aqui", apenas "fique bem". E seus olhos diziam "vá. Vá mas fique". E eu quis ficar, mesmo indo. Eu quis ficar mesmo querendo ir. Ficar naqueles braços que também me deram colo. Mas fui, porque seus olhos diziam e olhos de avó não mentem.

sábado, 15 de junho de 2013

segunda-feira, 10 de junho de 2013

Integral

Cabemos em qualquer parte.
Apertados, esmagados, espremidos ou folgados.
Cabemos.
Queremos.
Cabe mais que o nós.
Cabe o Sol, a chuva e o que vier depois.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Minhas palavras completam meu silêncio que, por sua vez, completa minhas palavras. Porém eles nunca se encontrarão.

06/06/2013 - 18:08
Ela me diz que eu sou bobo e eu acho graça. Ela me diz que eu sou bobo e eu acredito, acho bonito.

22/05/2013 - 16:23

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Eu não sei dizer

O que quer dizer
O que vou dizer

Vem, você.
Vem, meu cobertor.
Sol que não sai.
Vem, meu amor.

Vem pela manhã.
Vem todo dia.
Calor que se esconde.
Alegria.

segunda-feira, 3 de junho de 2013

Danilo Fernando

Já faz algum tempo que venho acompanhando o trabalho do Danilo, do blog Oásis e, com sua permissão, resolvi dividir os vídeos de algumas das minhas músicas favoritas.

- Universos;
-  Até o fim;
- Quero;
- Louco é Pouco.

E é isso! Tem mais no canal do Danilo, no YouTube, para quem quiser ver.

p.s.: Não consegui colocar os vídeos pois sou noob.

domingo, 2 de junho de 2013

Vento frio

Texto retirado do diário de Alice S. (11 de julho de 1998)
- Vento frio, vento da manhã. Vento frio, vento da manhã...

Continuei cantarolando a canção que aprendera há tanto tempo. Gosto do céu acinzentado da manhã. Gosto também desse cheiro de mar. A falta de vida humana ao meu redor é o maior consolo que poderia querer.

Me sento, observando as ondas ainda agitadas pela noite que se esvai. Olho para a minha direita: gaivotas vão em direção ao mar cor de cinza, em busca de seu café da manhã.

De onde vem o cinza do mar?

À esquerda, um pequeno rochedo com o sopé coberto de lodo, que é o refúgio de muitos casais madrugada afora. Novamente me lembrei das pessoas e foi como se uma onda daquele mar cinza tivesse se prolongado até onde eu me encontrava e me acertado com força, molhado meu corpo todo, me molhado por dentro.

Como é se molhar por dentro?

Devagar, me concentrando em cada um dos meus movimentos, me levantei. Pude sentir todos os meus músculos doloridos pela noite não dormida na areia dura da praia. Puxei, delicadamente, o zíper que fechava meu vestido branco e deixei que este caísse sobre meus pés que já mudavam de tom por causa do frio.

Seria mesmo o branco uma mistura de todas as cores?

Caminhei em direção ao mar. Quando criança, tinha medo do mar. Acho que era meio grande e forte demais para mim. A água fria, mas não tão fria quanto imaginava, toca meus pés. Sem pressa, caminho, apenas caminho. Vou indo e sentido o entorpecimento tomar conta de cada centímetro da minha pele, pelos e cabelos. Afundo.

O sal arde na garganta.

Eles me merecem viva.