sexta-feira, 14 de fevereiro de 2014

Pés

Texto retirado do diário de Alice S. (9 de julho de 1998)


Pés descalços que agora calçam sapatos. Eu os vejo daqui onde estou. Sapatos calçados, sinto um movimento na cama sobre mim e os observo caminhar até a porta, abri-la e se retirarem do pequeno quarto.

Aguardo ainda alguns instantes, mas talvez tenham sido horas a fio ali, embaixo da cama, pressionando meu corpo contra a parede áspera, retesando-me e respirando o mínimo possível. Não queria ser descoberta.

A noite toda. Dali do meu canto seguro eu o vi chegar, os ouvi discutindo e se reconciliando na cama de solteiro acima de mim. Senti o cheiro pulsante das drogas pesadas e das bebidas que minha mãe guarda no armário. Aquietei-me ainda mais, tentei pensar em algum motivo para sair dali: nenhum. 

Mas agora a situação mudara. Ele se fora e os roncos de minha mãe ressoavam pela casa afora. Pouco a pouco, rastejei para fora da proteção sob o colchão, senti o frio chão a muito não encerado, com manchas esverdeadas aqui e lá.

Levantei-me, olhando ao redor o estrago da noite anterior. E o maior deles: deitada na cama, com uma camisola velha e rasgada estava a minha mãe. Há anos ela não era mais a mesma e as atuais companhias não pareciam capazes de melhoras muito essa situação.

Vários quilos acima do peso, o cabelo desgrenhado e um caminho de saliva que escorria pelo canto da boca entre um ronco e outro não lhe emprestavam um ar muito sensual mas eu sabia que ela já fora muito atraente.

Virei as costas e saí a procura de algo para comer e ocupar o restante das horas do meu dia.

quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Eu me chamo Alice

Texto extraído do diário de Alice S. (13 de julho de 2003)
Levei cinco anos para encontrar meu pai, cinco anos desde que resolvi procurá-lo. Se tivesse contado desde que nasci teria levado 20 anos para encontrar meu pai. Acho que levei um bom tempo até conseguir ir atrás desse cara.

Agora, sentada a uma pequena distância do cafe que ele costuma frequentar, penso sobre o que vou fazer, remoendo o que vai em minha mente. Penso em uma mulher e uma criança sozinhas.

Penso em tudo o que passamos e tudo o que sofremos e tenho a certeza de que para cada dor e cada perda há um culpado: ele.

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014