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Pensamentos

13:59h Silêncio. Não é que ninguém dissesse nada, ou que eu nada pensasse, mas eu podia sentir o silêncio mesmo assim. Nunca soube por meus pensamentos em ordem. Pensamentos não são para se por em ordem. São apenas palavras, internamente vomitadas. Ao meu redor todos falam tanto, e sobre tantas coisas, fúteis ou não. Elas não me importam. Parece que ninguém me vê, embora eu sempre esteja aqui. Talvez me vejam quando eu não estiver mais. Vão olhar para os lados e dizer: - Cadê a garota que ficava ali? -É mesmo, tinha uma garota ali, agora não tem mais. -Como ela era mesmo? -Era loira. -Morena. -Alta. -Baixa. -Gorda. -Magra. Ninguém sabe como eu sou, porque nunca repararam.Como se eu fosse só um objecto feio de decoração, que ninguém para para ver. Mas isso é bom. Assim ninguém percebe quando eu rio de uma piada ou comentário idiota que alguém fez. Seria um desastre se percebessem. Então, ninguém vê também quando eu choro, já que isso também faço em silêncio. Embora meu inter...

"Eu tenho habilidade...

...de fazer histórias tristes virarem melodia E vou vivendo o dia-a-dia Na paz, na moral, na humilde, por si só sabedoria"   Charlie Brown Jr . Este é um trecho de uma das músicas que eu mais gosto. Antes eu nem ligava para a letra que elas, as músicas, tinham, tendo uma batida legal já era o suficiente. Mas aprendi, com uma amiga minha, das melhores, confesso, que tem muita coisa por trás de uma música, assim como pode também ter muita coisa por trás de um texto. E descobri, sozinha dessa vez, que nesta música tem tudo o que eu preciso, para quando estou triste, feliz, magoada, precisando de um puxão de orelha ou só de um motivo para não desistir, cada trecho me diz uma coisa. E hoje eu precisava deste. Eu sei que não tenho, talvez ainda, mas seria pretensão demais acreditar nisso, a habilidade de fazer com que histórias tristes, minhas ou não, virem melodia. Mas tento constantemente, ainda que não seja compreendida, ou levada a mal seja por quem for. E assim vivo, o dia-a...
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Viagem

"Abri meus olhos, foi como se um peso os empurrasse para baixo, mas eu lutei contra ele. Eu precisava levantar, já eram 22h e eu precisa delas naquele momento. Se não ficaria louco. Ouvi passos vindo para o meu quarto. 'Ninguém merece', pensei, 'deve ser aquela velha da minha mãe'. Dessa vez eu não ia fingir que estava dormindo, precisava de dinheiro, 'pelo menos isso ela tem'. -Filho, você acordou, meu amor. -Eu quero dinheiro. -Dinheiro? Mas para quê? -Não te interessa! Eu quero, quero agora! -Mas eu não tenho para te dar. -Saco! Não aguentava mais aquela mulher, achei que se eu começasse a arrebentar a casa ela me daria o que o queria. Dei um chute no guarda roupas e saí do quarto. Então fui para o quarto dela e comecei a revirar as gavetas, lá deveria ter alguma coisa. Foi quando ela apareceu atrás de mim, feito uma assombração, tentando me segurar, foi em vão, peguei tudo o que achei de valor, no quarto dela e no meu. E quando ia saindo passei p...

Libertação.

Meus pés descalços já nem sentem mais dor, as pedras que ele pisa, nele penetram, mas apressa não me deixa parar para retirá-las. Já é noite, a mata é densa, e eu ainda ouço ruídos de que me perseguem. Já me canso, mas não paro, o medo não deixa. Por onde passo, os galhos me arranham, meu sangue escorre pelos braços, mas o desespero não me deixa estancá-lo. De súbito, tenho que parar, avisto um abismo em minha frente. O que antes era só um murmúrio agora se torna um falatório imenso. Posso distinguir entre as vozes uma que diz: -Ela parou, ela parou! Era Wapenzi , minha filha. Eu sabia que ela havia me denunciado, mas não era capaz de considerar isso uma traição, nem tampouco odiá-la. Ainda mantia por ela o mesmo amor e carinho de uma mãe, que, com imenso esforço, criou uma filha sem a ajuda de ninguém. Olhando para trás já posso ver a luz das tochas e a ponta das lanças e dos tridentes. Respiro profundamente e, o pouco que me é possível proferir escapa-me pela garganta, como se f...

A culpa é de quem?

Era Páscoa, ela saia de sua casa, acompanhada do namorado, ambos levavam vários ovos de chocolate, que eram presentes para seus sobrinhos. Era um dia para a felicidade, iam comemorar com a família, como deveria ser. Estavam já dobrando a esquina, quando uma voz os surpreende: -Tia! A senhora tem uma moeda? Ela, por um momento ficou paralisada, não sabendo ao certo o que a deixara dessa maneira. Não podia deixar de encarar aqueles imensos olhos negros, eles tinham muito mais do que os outros que ela vira. Tinham vida. E uma vida muito sofrida. Algo longinguo , além de sua realidade. Então ela disse: -Não. Não tenho. E se foi. Com sua sacola cheia de ovos de Páscoa, e seus bolsos amarrotados de moedas. (baseado no depoimento de Bruna)

Ritmo, é ritmo de copa!

Eu estava no colégio, e isso não é muita novidade, era aula de geografia. A professora falava: - Nos anos 60, 70 o Brasil queria pertencer ao OCDE, mas não foi aceito. Agora, em 2010, a China queria que o Brasil se tornasse um membro permanente, mas ele não quis. Foi quando veio lá do fundo, de uma aluna que, eu nem vi, na verdade, quem era: - Olha! O Brasil está podendo, o Brasil é penta ! Penta ? Eu nem acredito que eu ouvi isso! Fiquei puta da vida, porque tomei isso como um espelho do que o brasileiro vê no Brasil. E é triste pensar, que apesar dos avanços, embora lentos, de nosso país, o único orgulho de um brasileiro ainda é nosso futebol.