Texto retirado do diário de Alice S. (9 de julho de 1998) Pés descalços que agora calçam sapatos. Eu os vejo daqui onde estou. Sapatos calçados, sinto um movimento na cama sobre mim e os observo caminhar até a porta, abri-la e se retirarem do pequeno quarto. Aguardo ainda alguns instantes, mas talvez tenham sido horas a fio ali, embaixo da cama, pressionando meu corpo contra a parede áspera, retesando-me e respirando o mínimo possível. Não queria ser descoberta. A noite toda. Dali do meu canto seguro eu o vi chegar, os ouvi discutindo e se reconciliando na cama de solteiro acima de mim. Senti o cheiro pulsante das drogas pesadas e das bebidas que minha mãe guarda no armário. Aquietei-me ainda mais, tentei pensar em algum motivo para sair dali: nenhum. Mas agora a situação mudara. Ele se fora e os roncos de minha mãe ressoavam pela casa afora. Pouco a pouco, rastejei para fora da proteção sob o colchão, senti o frio chão a muito não encerado, com manchas esverdeadas...