Não gosto de ir ao psicólogo. Sempre que vou passo dias pensando em coisas que não quero mais pensar. Tem sentimentos que eu quero esquecer dentro de mim. É ridículo o quanto eu sei como eu sou insignificante, mas esperam que eu goste de mim mesma. Acho que foi a gota d'água. Já fazem mais de 7 anos que não escrevo aqui. Talvez a minha vontade de escrever tenha crescido tanto que explodiu. Penso que a solução seja voltar. Talvez assim eu possa explicar como é difícil viver na minha cabeça.
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Já há algum tempo eu olho a tela em branco e tento dizer algo de alguma maneira. Pensei, por vezes, ter algum problema e me julguei ser uma má pessoa. Como eu não consigo pensar em alguma coisa para dizer? É porque não é simples, não é uma coisa simples gostar tanto de alguém que seu peito dói. Não é uma coisa simples querer estar ao seu lado no fim de cada dia. E você deixa tudo melhor. É tão único e tão nosso os sorrisos e as piadas que não têm a menor graça. São tão nossas as receitas que ninguém sabe se darão certo. É tão nosso dançar Sétimo Andar no meio da cozinha. É tão seu. É tão meu. Uma das coisas que mais me alegram na vida é saber que você me ajuda todo dia a ser alguém melhor. A me descobrir e a crescer. Queria saber se você sabe que é incrível. Se você sabe que tem o olhar mais reconfortante e o sorriso mais acolhedor. Se você sabe que tem os cabelos mais macios e a personalidade mais apaixonante. Se você sabe que tem o coração indescritivelmente bom. Espero que saiba, m...
Amargor
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Às vezes eu penso que estou me tornando uma pessoa amarga, tal qual aquele café velho e requentado, que amarra a boca só de olhar. Tem dias que as pessoas me incomodam. Elas falam coisas que não quero ouvir, insistem para que eu goste de coisas, pessoas e lugares que no momento eu só quero um pouco de distância. Não gosto dessa versão impaciente de mim. Mas me irrita ser a mãe, a responsável por pessoas que são mais velhas que eu! Não quero mandar, não quero escolher, não quero decidir, ao menos por um tempo. Quero um descanso para a minha cabeça, mas as responsabilidades batem à porta o tempo todo, e o telefone toca, e a mensagem chega, e alguém chama, e eu preciso novamente cuidar, lembrar, fazer até o que não sou eu que estou fazendo.
O quintal
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Numa manhã no começo dos anos 2000, ou talvez no final da década de 90 eu me sentei no meu quintal. No momento eu não sabia ainda quantas vezes repetiria essa ação. Nem quantos momentos eu passaria nesse mesmo quintal. Era o meu quintal, mas também era o quintal da minha família inteira. Esse quintal, que eu acreditava na época ter um tamanho razoável, afinal todas as casas do bairro possuíam a mesma configuração, própria dos bairros feitos em mutirão, o que fazia com que meus amigos todos morassem em casas praticamente iguais, ou então muito parecidas; hoje me parece tão grande e cheio de vida. A vida nele começava no muro que fazia divisa com a casa vizinha, por sobre o qual se pendurava um cacho de banana por brotar, o qual já sabíamos de antemão que receberíamos de presente de sua dona. Na sequencia, um pé de caqui que meu pai plantara, enquanto eu ainda estava no ventre, para satisfazer um desejo de gravidez. Ano após ano, ele nos proporcionava alguns poucos frutos para, e...
Tempo
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Eu não sei quando aconteceu, mas uma manhã eu acordei, olhei no espelho e estava lá. Eu já tinha me acostumado tanto que precisei olhar por alguns minutos para ter certeza. Meu rosto, meu corpo, minha alma já tem quase dez anos a mais que quando eu escrevi a primeira linha tosca neste refúgio. De lá para cá eu mudei tanto e ao mesmo tempo não mudei nada. Ainda sofro por coisas que não importam realmente, ou que talvez importem demais. Ainda rio de piadas sem graça e me divirto com programas de televisão. Ainda olho para o céu com esperança e impaciência. O meu mal é a impaciência, porque eu corro com um monte de coisas, mesmo sabendo que bem lá no fundo, eu só quero que o tempo passe o mais devagar possível. Ele já correu tanto até aqui, já passou tão depressa até agora. Eu só quero desacelerar, quero voltar a ler na rua enquanto caminho sem pressa. Quero tomar um café sentada tomando sol, enquanto o vento é frio de manhã. Quero te olhar nos olhos por mais de meia hora seguida. Est...
"A bolsa amarela tava vazia à beça.
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... Tão leve. E eu também, gozado, eu também estava me sentindo um bocado leve." (A bolsa amarela - Lygia Bojunga) Este é o último parágrafo do meu livro favorito no mundo inteiro. Ultimamente eu tenho me sentido assim: leve. E com vontade de escrever... Acho que perdi completamente o jeito ou então esse tal de jeito nunca esteve em mim. Quero dizer, escrever e reescrever conforme antes fazia mas não me chegam palavras que me agradem. É só essa vontade de gritar para o mundo: me sinto infinita e profundamente bem!
Cem rostos
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Eu vejo cem rostos. Vejo cem pares de olhos. Cem pares desse misto confuso de inocência e sabedoria. Cem pares de medo, de confusão e de querença. E cem formas diferentes de tentar disfarçar tudo isso. Podem até pensar que não, mas eu vejo. Eu vejo todos os duzentos me olhando de volta. Eu percebo as inquirições não proferidas e me certifico de tentar não interferir no andar de tudo. Muitos não sabem o quão árduo é o trabalho de tentar fazer parecer leve algo tão denso. Crescer é contraditório.
L’appel Du vide
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Encarar o vazio. Primeiro era o vento, e o turbilhão de sentimentos. A raiva, o choro, o desespero mas nunca o medo. Não. O medo não. O medo sempre fora uma invenção, uma forma de fugir de tudo, fingir ter medo. A realidade me batia no rosto junto daquele vento forte e parecia me cortar as faces. Era como um milhão de folhas raspando em minha pele. Eu olhava para baixo e via o nada. E o nada me olhava de volta. Depois era o vazio, e a torrente de lembranças. A noite passada e os entorpecentes. O carro indo embora e me deixando no meio da estrada. Os risos. Os olhos. As palavras e o eco das palavras. O eco é sempre maior, na verdade. Minha cabeça tem uma reflexão sonora imensa. E, como um choque, a água. E com ela o frio. E com o frio a calma. O mar por cima é agitado, cheio de ondas e violência. Ao submergir, observa-se o mar verdadeiro. Calmo e silencioso. Eu estava finalmente em paz. Estava no frio, na calma, no silêncio do mar. Então eu finalmente encontrei o medo. ...
Escuro
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Deitada no chão, sinto a maciez da grama abaixo de mim. Os insetos ainda me incomodam. Me concentro em seus zumbidos, ao invés de tentar dissociá-los de minhas ideias. As estrelas refletem em minhas pálpebras fechadas, e eu as encaro ferozmente. É como se cada segundo, cada coisa por que passei durante toda a minha vida, cada pessoa com que falei, cada passo, cada respirar tivessem apenas um propósito: me trazer até este momento. Lentamente abro os olhos para a escuridão que me cerca. Olho o céu acima de mim, sem saber do que se trata isso de em cima, afinal, todos estamos flutuando nisso tudo. Sinto o orbitar da Terra, me levando junto, ao mesmo tempo em que o profundo do meu ser orbita ao redor de tudo. Um pulsar cada vez mais lento ocupa meu peito, como se eu percebesse, neste exato momento, que o pulsar não é um movimento cardíaco, físico, mas o meu eu dizendo: eu existo!
De onde vem o ódio?
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Durante uma manhã inteira eu presenciei o ódio, o ódio de uma maneira simples, porém complexa. O ódio pelo ódio, quase sem motivo aparente. O ódio profundo pelo pouco, o ódio superficial que demora a passar. E essa presença foi, pouco a pouco, se tornando palpável, entrando em mim. Como um mar gelado, um mar de gelatina! Denso, porém doce, como se tentasse me convencer de que me afogar seria bom, prazeroso. Não fosse um segundo de repentina sanidade, teria me entregado a ele. O ódio me seduziu essa manhã. Entre as palavras ouvidas, que não me deveriam ter entrado pelas orelhas, ele balbuciava: "vim te buscar".