O cotidiano dói.
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Amargor
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Às vezes eu penso que estou me tornando uma pessoa amarga, tal qual aquele café velho e requentado, que amarra a boca só de olhar. Tem dias que as pessoas me incomodam. Elas falam coisas que não quero ouvir, insistem para que eu goste de coisas, pessoas e lugares que no momento eu só quero um pouco de distância. Não gosto dessa versão impaciente de mim. Mas me irrita ser a mãe, a responsável por pessoas que são mais velhas que eu! Não quero mandar, não quero escolher, não quero decidir, ao menos por um tempo. Quero um descanso para a minha cabeça, mas as responsabilidades batem à porta o tempo todo, e o telefone toca, e a mensagem chega, e alguém chama, e eu preciso novamente cuidar, lembrar, fazer até o que não sou eu que estou fazendo.
O quintal
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Numa manhã no começo dos anos 2000, ou talvez no final da década de 90 eu me sentei no meu quintal. No momento eu não sabia ainda quantas vezes repetiria essa ação. Nem quantos momentos eu passaria nesse mesmo quintal. Era o meu quintal, mas também era o quintal da minha família inteira. Esse quintal, que eu acreditava na época ter um tamanho razoável, afinal todas as casas do bairro possuíam a mesma configuração, própria dos bairros feitos em mutirão, o que fazia com que meus amigos todos morassem em casas praticamente iguais, ou então muito parecidas; hoje me parece tão grande e cheio de vida. A vida nele começava no muro que fazia divisa com a casa vizinha, por sobre o qual se pendurava um cacho de banana por brotar, o qual já sabíamos de antemão que receberíamos de presente de sua dona. Na sequencia, um pé de caqui que meu pai plantara, enquanto eu ainda estava no ventre, para satisfazer um desejo de gravidez. Ano após ano, ele nos proporcionava alguns poucos frutos para, e...
Tempo
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Eu não sei quando aconteceu, mas uma manhã eu acordei, olhei no espelho e estava lá. Eu já tinha me acostumado tanto que precisei olhar por alguns minutos para ter certeza. Meu rosto, meu corpo, minha alma já tem quase dez anos a mais que quando eu escrevi a primeira linha tosca neste refúgio. De lá para cá eu mudei tanto e ao mesmo tempo não mudei nada. Ainda sofro por coisas que não importam realmente, ou que talvez importem demais. Ainda rio de piadas sem graça e me divirto com programas de televisão. Ainda olho para o céu com esperança e impaciência. O meu mal é a impaciência, porque eu corro com um monte de coisas, mesmo sabendo que bem lá no fundo, eu só quero que o tempo passe o mais devagar possível. Ele já correu tanto até aqui, já passou tão depressa até agora. Eu só quero desacelerar, quero voltar a ler na rua enquanto caminho sem pressa. Quero tomar um café sentada tomando sol, enquanto o vento é frio de manhã. Quero te olhar nos olhos por mais de meia hora seguida. Est...
"A bolsa amarela tava vazia à beça.
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... Tão leve. E eu também, gozado, eu também estava me sentindo um bocado leve." (A bolsa amarela - Lygia Bojunga) Este é o último parágrafo do meu livro favorito no mundo inteiro. Ultimamente eu tenho me sentido assim: leve. E com vontade de escrever... Acho que perdi completamente o jeito ou então esse tal de jeito nunca esteve em mim. Quero dizer, escrever e reescrever conforme antes fazia mas não me chegam palavras que me agradem. É só essa vontade de gritar para o mundo: me sinto infinita e profundamente bem!