Eram três.
Texto retirado do diário de Alice S. (10 de julho de 1998)
Eu os vi. Vi seus pés. Passaram lentamente. Um por vez.
Eram aproximadamente 6 da manhã e eu sentia que não dormira durante toda a noite. Quem me visse naquele estado não poderia imaginar tudo o que tinha passado. De toda a produção da noite passada só me restou um vestido branco, com que cubro meu corpo e feridas.
De tudo tenho apenas lapsos. Uma festa, muita bebida, algo diferente, "experimente". Um quarto, mãos, eu presa em uma cadeira, dor. Tenho diversos lapsos de dor e um misto de sensações que não sou capaz de identificar, mas meus olhos já não viam mais nada. Vozes. E então acordei, com medo de me mexer. Estava deitada no chão, debaixo de uma chuva fina e insistente. Acho que não deveria tê-los visto, mas os vi. Dois homens, uma mulher. Não vi seus rostos, mas vi seus pés.
Mais de uma hora se passou até que eu começasse a sentir novamente. Senti minhas pernas, que formigavam. Senti o frio e a chuva. Aos poucos, me levantei e senti dor. Todo meu corpo doía. Minha boca sangrava um pouco e conservei nela o gosto metálico. Em meu vestido, marcas que diziam mais do que eu saberia informar.
Andei por três quarteirões até chegar a um lugar conhecido. Me dirigi a um dos telefones públicos que sobreviveram a modernidade, foram poucos. Identifiquei no chão o telefone de um taxista, estrategicamente posicionado para tirar proveito dos desesperados. Disquei. Informei onde me encontrava. Esperei.
Tomara que eu tenha dinheiro em casa.

Comentários
Muito bom texto Fleur! =D
PedrodeAmolar