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Pés

Texto retirado do diário de Alice S. (9 de julho de 1998) Pés descalços que agora calçam sapatos. Eu os vejo daqui onde estou. Sapatos calçados, sinto um movimento na cama sobre mim e os observo caminhar até a porta, abri-la e se retirarem do pequeno quarto. Aguardo ainda alguns instantes, mas talvez tenham sido horas a fio ali, embaixo da cama, pressionando meu corpo contra a parede áspera, retesando-me e respirando o mínimo possível. Não queria ser descoberta. A noite toda. Dali do meu canto seguro eu o vi chegar, os ouvi discutindo e se reconciliando na cama de solteiro acima de mim. Senti o cheiro pulsante das drogas pesadas e das bebidas que minha mãe guarda no armário. Aquietei-me ainda mais, tentei pensar em algum motivo para sair dali: nenhum.  Mas agora a situação mudara. Ele se fora e os roncos de minha mãe ressoavam pela casa afora. Pouco a pouco, rastejei para fora da proteção sob o colchão, senti o frio chão a muito não encerado, com manchas esverdeadas...

Eu me chamo Alice

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Texto extraído do diário de Alice S. (13 de julho de 2003) Levei cinco anos para encontrar meu pai, cinco anos desde que resolvi procurá-lo. Se tivesse contado desde que nasci teria levado 20 anos para encontrar meu pai. Acho que levei um bom tempo até conseguir ir atrás desse cara. Agora, sentada a uma pequena distância do cafe que ele costuma frequentar, penso sobre o que vou fazer, remoendo o que vai em minha mente. Penso em uma mulher e uma criança sozinhas. Penso em tudo o que passamos e tudo o que sofremos e tenho a certeza de que para cada dor e cada perda há um culpado: ele.

Eram três.

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Texto retirado do diário de Alice S. (10 de julho de 1998) Eu os vi. Vi seus pés. Passaram lentamente. Um por vez. Eram aproximadamente 6 da manhã e eu sentia que não dormira durante toda a noite. Quem me visse naquele estado não poderia imaginar tudo o que tinha passado. De toda a produção da noite passada só me restou um vestido branco, com que cubro meu corpo e feridas. De tudo tenho apenas lapsos. Uma festa, muita bebida, algo diferente, "experimente". Um quarto, mãos, eu presa em uma cadeira, dor. Tenho diversos lapsos de dor e um misto de sensações que não sou capaz de identificar, mas meus olhos já não viam mais nada. Vozes. E então acordei, com medo de me mexer. Estava deitada no chão, debaixo de uma chuva fina e insistente. Acho que não deveria tê-los visto, mas os vi. Dois homens, uma mulher. Não vi seus rostos, mas vi seus pés. Mais de uma hora se passou até que eu começasse a sentir novamente. Senti minhas pernas, que formigavam. Senti o frio e ...

Vento frio

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Texto retirado do diário de Alice S. (11 de julho de 1998) - Vento frio, vento da manhã. Vento frio, vento da manhã... Continuei cantarolando a canção que aprendera há tanto tempo. Gosto do céu acinzentado da manhã. Gosto também desse cheiro de mar. A falta de vida humana ao meu redor é o maior consolo que poderia querer. Me sento, observando as ondas ainda agitadas pela noite que se esvai. Olho para a minha direita: gaivotas vão em direção ao mar cor de cinza, em busca de seu café da manhã. De onde vem o cinza do mar? À esquerda, um pequeno rochedo com o sopé coberto de lodo, que é o refúgio de muitos casais madrugada afora. Novamente me lembrei das pessoas e foi como se uma onda daquele mar cinza tivesse se prolongado até onde eu me encontrava e me acertado com força, molhado meu corpo todo, me molhado por dentro. Como é se molhar por dentro? Devagar, me concentrando em cada um dos meus movimentos, me levantei. Pude sentir todos os meus músculos doloridos...

Ao me virar...

 ...me deparei com seu rosto bem próximo ao meu e pude ouvir meu coração gritar. Calmamente, como quem já tinha tudo premeditado, ela disse. - Era mentira. - O que? - Não importa. Acho que já sabe porque o trouxe até aqui. Na verdade, não sabia. Eu apenas podia imaginar mas não tinha certeza de que não era só a minha vontade agindo sobre mim. Ela me olhou profundamente nos olhos, de uma maneira nova, única. Sorriu por um breve instante e se retirou em direção à cama. O que aconteceu depois foi um misto de luxúria, curiosidade e deleite. Deitado ao lado de Alice naquela cama, olhando o teto sujo do quarto simples me senti renovado de uma maneira que lembrou casos passados. Me virei para lhe dar mais um beijo e vi que trazia lágrimas nos olhos. Não pude entender o que havia. Estava me sentando e me preparando para lhe indagar sobre quando lentamente abriu a gaveta do criado-mudo que estivera até então cumprindo bem seu papel em um canto e retirou um lust...

Alice

Conheci Alice há alguns anos. Eu estava, como de costume, sentado naquele café estrategicamente posicionado - próximo aos escritórios do centro da cidade - atulhado de papéis que insistia em levar para casa, como se já não trabalhasse o suficiente durante o dia. Era ainda cedo, umas 7 da manhã, eu acho, e lá estava eu, saboreando meu café e tentando me concentrar naqueles processos para me desligar dos problemas de casa, que me fazem preferir pagar pela refeição toda manhã só para poder sair uma hora mais cedo e passar uma hora a menos com uma mulher que há muito já não chamo de minha. Levantei meus olhos por alguns instantes e a vi entrar vagarosamente carregando alguns livros. De imediato, o modo como ajeitou os cabelos já me chamou a atenção. Futuramente eu tentaria me lembrar do momento exato em que apaixonei por ela e, sem dúvida alguma, saberia que foi quando sua mão esquerda passou, desajeitadamente, pelos cabelos soltos, afastando-os e deixando a mostra a or...