O quintal


Numa manhã no começo dos anos 2000, ou talvez no final da década de 90 eu me sentei no meu quintal. No momento eu não sabia ainda quantas vezes repetiria essa ação. Nem quantos momentos eu passaria nesse mesmo quintal. Era o meu quintal, mas também era o quintal da minha família inteira.
Esse quintal, que eu acreditava na época ter um tamanho razoável, afinal todas as casas do bairro possuíam a mesma configuração, própria dos bairros feitos em mutirão, o que fazia com que meus amigos todos morassem em casas praticamente iguais, ou então muito parecidas; hoje me parece tão grande e cheio de vida.
A vida nele começava no muro que fazia divisa com a casa vizinha, por sobre o qual se pendurava um cacho de banana por brotar, o qual já sabíamos de antemão que receberíamos de presente de sua dona.
Na sequencia, um pé de caqui que meu pai plantara, enquanto eu ainda estava no ventre, para satisfazer um desejo de gravidez. Ano após ano, ele nos proporcionava alguns poucos frutos para, em junho, secar seus galhos e derrubar suas folhas, nos fazendo acreditar que seria seu fim. Todo o teatro somente para, em setembro, florir novamente.
A seus pés, dentro do que um dia fora um pneu de caminhão, ficava uma pequena horta de cebolinhas plantadas com esmero e sempre cuidadas por minha mãe. Continuando pelo quintal, um pé de acerola com seus galhos que cresciam para as laterais, enchendo de coceira os braços dos que se atreviam a se meter entre eles em busca dos frutos.
Um pé de limão que nos garantiu muitas limonadas nas tardes de verão, depois de correr muito pelo quintal, brincando do que viesse à mente. Esse sim, infelizmente, um dia não mais floresceu, seus galhos secaram e os limões ficaram na saudade, apenas.
Não me esquecendo ainda da figueira, da pitangueira, da ameixeira, da goiabeira e até dos poucos pés de cana. Nosso quintal tinha fartura de delícias por metro quadrado.
Bem ao fundo, encostada ao muro, sob o pé de mexerica poncã que era a alegria das crianças não só da casa, como de toda a rua, eu me sentei. Me sentei na escada de madeira já um pouco velha e construída por meu pai, não me recordo para qual finalidade.
Dali, eu olhava o quintal e a casa, mas não conseguia ver a rua. Eu inventava estórias e observava as coisas. Eu queria saber de tudo, mas sem perceber que já sabia muito. Sinto saudades daquela casa. Sinto saudades do meu quintal. Ele não existe mais, pelo menos nunca procurei o atual morador para verificar.
Mas acredito que seja melhor assim. Ver que mudou tanto a ponto de estar irreconhecível me deixaria triste. Nessa casa eu vivi por 16 anos, nunca passei tanto tempo em qualquer outro lugar. Talvez seja por isso que, nos meu sonhos, eu ainda moro lá.
Porque é lá que minhas bruxas, meus fantasmas, minhas fadas, meus monstros e toda a minha infância moram. Foi lá que eu pulei elástico, virei estrelinha e balancei na rede. Foi lá que eu joguei videogame, ouvi música e aprendi a ler. Foi lá que eu brinquei na chuva, que eu subi e árvore e chutei bola. Foi lá que eu sentei na escada numa manhã.

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