quinta-feira, 20 de junho de 2013

Almoço

Seria como outro qualquer. Entrei, devagar, no restaurante, chacoalhando minha sombrinha um pouco molhada pela chuva fraca e insistente do dia. Procurei uma mesa desocupada, o que não demorei a avistar. O lugar estava meio cheio - ou meio vazio, dependendo da filosofia tomada como base. Atravessei o pequeno salão, indo me sentar em uma mesa pequena na parede oposta.

Me sentei. Olhei ao redor. Vi. Um palhaço almoçando sozinho numa mesa central. Palhaço. Sozinho. Confesso que fui tomada pelo desejo de sentar-me com ele mas o contive, afinal não sabia se seria bem vista em tal atitude.

Minha fome me fez esquecer do palhaço por alguns minutos e eu almocei. Feito, me levantei para ver o que tinha de sobremesa e percebi que ele se encaminhava para o caixa. Parei disfarçadamente - eu acho! - para observá-lo mais um pouco: cerca de 60 anos, acredito, baixo, levemente encorpado, olhar de palhaço.

Pagou a conta com mais de 20 moedas enquanto a cobradora o indagava sobre seu trabalho.

- Eu vendo... - não consegui ouvir.

- Ah! Achei que fizesse divulgação para alguma loja.

Vende. Voltei para minha mesa. Me sentei. Ele saia. Pegou um carrinho com várias coisas coloridas não identificadas que estava estacionado na porta e saiu empurrando-o. Me olhou. Fez cara de sorriso contido, provocador, com olhinhos diminuídos e boca retraída. Ele me viu.

Terminei de comer. Paguei. Saí. A chuva tinha dado uma trégua. Segui por menos de um quarteirão e o avistei, do outro lado da rua, vendendo suas cores. Ele me olhou, fez sinal para que eu fosse até ele. Fiquei sem saber o que fazer. Ele insistiu. Sorri. Fui.

- Me dá o teu sorriso e leva o meu para casa!

Dizendo isto, me mostrou uma espécie de brinquedo, um boneco simples feito de bexiga e farinha com mais alguns apetrechos. Modelou-o de modo que sorrisse, depois fizesse uma expressão zangada, em seguida lhe deu um bico de pato, antes de transformá-lo em mola. Esticava, soltava, puxava com a maior facilidade. Ao perceber meu interesse me disse o preço.

- Tem cor-de-rosa choque também!

- Mas vou querer o azul.

Paguei por um boneco que, materialmente, não valia metade do preço, mas trazia junto um sorriso. Sorriso de palhaço.

7 comentários:

Pedro Henrique disse...

Na minha humilde opinião comprou um dos poucos tesouros encontrados hoje em dia que são vendidos, literalmente, a preços de paçoca, que são tão baratos e tão preciosos ao mesmo tempo! *---------*
Lindo texto menina!

PedrodeAmolar

Pedro Henrique disse...

Bala de yogurt também! *-*

Jéssica Marques disse...

kkkk pedaço do céu *-*

Eilan disse...

Que lindo guria. Me fez ficar pensando na cena.

Você é muito boa contadora de estórias!

Bjos,

Eilan

borderline-girl.blogspot.com

Jéssica Marques disse...

Obrigada,Eilan!

Suzana disse...

Ah eu imaginei cada detalhe! *---* "-Me dá o teu sorriso e leva o meu para casa!" *--*

Adolecentro

Jéssica Marques disse...

Foi essa frase o que mais me cativou!