sábado, 6 de novembro de 2010

ENUB - Parte III


ATO II
QUADRO I
(Entra Romana, fica ajeitando a casa. Entra Tião)


ROMANA – Acordou cedo, hein?
TIÃO – É!
ROMANA – O café já está pronto.
TIÃO – A senhora também acordou mais cedo...
ROMANA – Serviço, filho, muito serviço! Você não dormiu quase nada...
TIÃO – É...
ROMANA (aproximando-se de Tião) – Está enfezado por quê?
TIÃO – Eu?   
ROMANA – Deixa disso, fui eu que te fiz e te conheço bem. Essa testa franzida não me engana. O que é que há?
TIÃO – Nada, ué?
ROMANA (com intenção) – Vais fazer piquete?
TIÃO – O quê?
ROMANA – Piquete de greve. Vai fazer?
TIÃO – Não sei. Acho que já tem gente o bastante.
ROMANA – Não vai se meter em bolo, hein?!
TIÃO – Que bolo que pode dar?
ROMANA – Greve sempre dá bolo?
TIÃO – Nem sempre.
ROMANA – Polícia chegou, Sai de perto! Não vai se meter à valente!
TIÃO – Não precisa se preocupar.
ROMANA – Vê lá, hein?
TIÃO – Eu sei o que faço. Não se incomode! (Tião vai saindo)
ROMANA – Não vai esperar teu pai para sair?
TIÃO – Não!
ROMANA – Por quê?
TIÃO – Para quê?
ROMANA – Você sempre espera!...
TIÃO - Hoje está muito cedo. Não vou esperar...
ROMANA – Está bem.
TIÃO – Se Maria vier, diz para ela não se preocupar. Ela também está com besteira na cabeça.
ROMANA – Eu digo. Então, vai com Deus!
TIÃO – Eu volto logo! (Sai.)
OTÁVIO (entra afivelando o cinto) – Puxa, dormi demais!
ROMANA – Está cedo ainda!
OTÁVIO – Cedo, nada! Eu já deveria estar na fábrica, preciso organizar o meu piquete... Está pronto o café?
ROMANA – Está quentinho!
OTÁVIO – Cadê Tião?
ROMANA – Já foi!
OTÁVIO – Já saiu? Ora essa...
ROMANA – Estava com uma daquelas caras!...
OTÁVIO – E por que não me esperou?
ROMANA – Sei lá, foi embora!...
OTÁVIO – O Tião é capaz de fazer besteira!...
ROMANA – Que besteira?
OTÁVIO – Sei não! Desde quando a gente começou a falar em greve, ele anda meio esquisito... Mas não há de ser nada. (se despede. Sai.)
Maria entra.
ROMANA – Ué, você por aqui há essa hora?
MARIA – Queria falar com a senhora.
ROMANA – Falou com o Tião?
MARIA – Falei. Ele está preocupado com o casamento da gente. Tem medo de que a greve não dê certa, de perder o emprego e não poder mais casar.
ROMANA – E então?
MARIA – Ele disse que sabe o que faz!... Eu me aquietei um pouco!
ROMANA – Seja o que Deus quiser!
MARIA – Sabe D. Romana, eu gosto muito do Tião!
ROMANA (um tanto espantada com o inesperado da frase) – Bom para ele.
MARIA – Eu gosto muito da senhora também!
ROMANA – Uai! Obrigada, eu gosto de você também!
MARIA – Eu acho que a senhora é o tipo da mãe que sabe entender os filhos!
ROMANA – Pode ser...
MARIA – A gente tem confiança na senhora!
ROMANA – Tanto elogio dá para desconfiar!
MARIA – Não é elogio, não. A gente não pode esconder nada da senhora, a gente precisa contar tudo o pedir conselho...
ROMANA – Então, quer me contar alguma coisa. Vamos lá!
MARIA – A senhora sabe que eu gosto muito do Tião...
ROMANA – Você já disse isso. Eu acredito.
MARIA – Eu acho que ele também gosta de mim!
ROMANA – Eu também acho.
MARIA (sem saber como continuar) – Pois é, e quando a gente gosta, a gente gosta muito e... E... E não pensa muito...
ROMANA (com toda calma. Calmíssima) – Você está grávida, né, minha filha?
MARIA (no mesmo tom) – Estou sim senhora.
ROMANA – Eu estava meio desconfiada mesmo!...
MARIA – Só não quero que a senhora fique aborrecida! Nós vamos casar. Eu não conto para ninguém. Mamãe vai ficar chateada se souber...
ROMANA – Pode deixar. Eu não digo nada, não.
MARIA – E o que a senhora acha que eu devo fazer?
ROMANA – Parir, minha filha! O que é que você quer fazer?
MARIA (sem jeito) – Eu sei... Eu digo, devo esperar aquietar até casar? Vou precisar casar no mês que vem!
ROMANA – Por isso é que Tião está tão preocupado com o negócio do emprego, não é?
MARIA – Acho que sim... É sim.
ROMANA – Bobagem dele. A gente sempre se vira na hora “h”!
TIÃO (entrando) – Você aí dengosa?
ROMANA – Já de volta?
MARIA – Como é que foi?
TIÃO – Tudo bem.
MARIA – Deu certa a greve?
TIÃO – Como é que a gente vai saber?
ROMANA – Mas a turma topou a greve?
TIÃO – Topou. Dezoito operários furaram a greve... Só.
MARIA (abraçando-o) – Eu não dizia? Para quê ter medo?
ROMANA – Deu algum bolo?
TIÃO – Tinha muitos policiais na porta, mas acho que não deu nada.
ROMANA – Teu pai?
TIÃO
MARIA – Quer dizer que o trabalho parou mesmo?
TIÃO – Parou!
MARIA – E os que furaram a greve?
TIÃO – Um levou umas tapas. Só isso.
ROMANA – Olha me desculpe, mas eu estava com a impressão que você ia furar, sabe?
TIÃO (sem jeito) – É...
MARIA – Quer dizer que está tudo em ordem?
TIÃO – Tá!
ROMANA – Você deveria ter vindo com teu pai. Ele é capaz de fazer besteira.
TIÃO – Ele estava meio ocupado ainda...
ROMANA – Ainda bem que naõ deu bolo.
MARIA – Viu como foi fácil?
TIÃO – Não foi tão fácil. Eu tinha meio razão quando dizia que a turma não ia topar. No princípio, uma porção de gente queria entrar na fábrica. Os piquetes é que trabalharam direito e convenceram todo mundo... O pai não descansou. Acho que o patrão naõ deve gostar muito dele, não!
ROMANA - Bom. Agora nós vamos ter uma conversinha!
TIÃO (pondo-se em guarda) – Nós?
ROMANA – Sim senhor, seu cínico! Então o senhor é pai, não é?
TIÃO (a Maria) – Ah, você veio contar?
MARIA – Vim.
ROMANA (a Tião) – Você merecia umas bordoadas, seu apressado. E ainda fica quieto, com a cara mais cínica do mundo!
TIÃO (com meio sorriso) – É mãe, a senhora vai ser avó! (abraçam-se)
BRÁULIO (entra arfando como antes) – D. Romana...  Uff... Êta, subidinha!... (estanca ao ver Tião.) Ah! Você já está aqui!
ROMANA – Nem esperou pelo pai!
BRÁULIO – E nem pode esperar. Preferiu se esconder logo junto da mamãe e da noivinha!
TIÃO – Não se mete nisso Bráulio!
BRÁULIO – Não se mete não se mete! Assim é fácil! Desculpe-me D. Romana, mas não sei por que teu filho veste calças!
ROMANA (confusa e irritada) – Espera aí, seu Bráulio! O que é que houve?
TIÃO – Nada, mãe! Só que eu fui um dos dezoito que furaram a greve. Só isso!
BRÁULIO – De você eu não esperava isso, Tião!
TIÃO – Bráulio! Você nem sabe por que foi!
BRÁULIO – Não, velho, para isso naõ tem desculpa. Você traiu a gente e isso naõ tem desculpa.
MARIA (segurando a mãe de Tião) – Por que, Tião?
TIÃO – Não se preocupa Maria. O que interessa para a gente é que eu não vou perder o emprego. Eu entrei, furei a greve, o encarregado tomou nota do nome da gente. Deu mil cruzeiros para cada um de gratificação e disso que a gente naõ ia se arrepender. Para mim é o que basta.
ROMANA – Desta vez, filho, você fez besteira!
TIÃO – Cada um resolve seus problemas como pode! O meu, eu resolvi desse jeito.
BRÁULIO – Traindo seus companheiros! Se todo mundo pensasse assim, adeus aumento meu velho!
TIÃO – Eu não podia arriscar!
BRÁULIO – Arriscar o quê?
TIÃO – Meu emprego. A gente precisa viver! Se eu perco meu emprego como é que eu fico?
BRÁULIO – Não fica muito pior, não! Arriscar salário mínimo é o mesmo que não arriscar nada. E depois, todo mundo tem seus problemas para resolver, ninguém ia aguentar muito tempo. Você quis agir sozinho, meu velho, e sozinho não adiantam!
TIÃO (obstinado) – Greve é defesa de um direito. Eu não quis defender meu direito e chega!
BRÁULIO – Você se sujou, Tião! Agora vai ser pior!...
TIÃO – Tenho meu emprego!
BRÁULIO (exaltando-se mais) – Ninguém vai perder o emprego, a gente já venceu a greve!
TIÃO – Podia não vencer!
ROMANA – Chega de bate boca! Vocês resolvem isso depois!
MARIA (a Tião) – Você não devia!
TIÃO – Não se preocupe, eu sei o que faço!...
ROMANA (com amargura) – Por isso você não saiu com teu pai, por isso não voltou com teu pai...
BRÁULIO – Nem adiantava esperar... Otávio foi um grande cara. Se não fosse ele e mais meia dúzia de piquetes, a greve gorava. É assim que a gente deve pensar Tião, e não tirar o corpo fora, resolver os problemas pela metade, deixando os outros no fogo...
TIÃO (gritando) – Vai cuidar da tua vida!
ROMANA – Cala a boca, Tião!
BRÁULIO – Otávio ficou entusiasmado e começou a fazer comício na porta da fábrica. Foi em cana! Prenderam-no como agitador!
ROMANA (Tira o avental.). Eu vou até lá...
BRÁULIO – Não vale à pena, D. Romana, tá uma turma tratando de soltar ele!
ROMANA – Que turma! Eu sou mulher dele, não sou? Eu vou lá! Meu marido preso, quem é que cuida disso aqui? Eu vou lá! (Saem)

2 comentários:

Luis Eduardo disse...

Jéssica, li o livro hj num gole( é realmente ótimo), e vim ver tua adaptação, e posso dizer uma coisa: está ficando otima, vc conseguiu até o momento enxugar a história cortando personagens( como o João, Terezinha, Chiquinho e outros) mas sem perder o fio central da ação( a vontade de crescer na vida de Tião e a greve), parabens! To curioso pra saber como vc vai terminar( a fala final do livro é do Chiquinho e da Terezinha, porém, é possivel fazer a história sem eles, a intensidade do drama esta na figura da Romana)Inté!

Tina disse...

É... Vai ser um baita pepinão fazer o papel dela! ;x