segunda-feira, 8 de novembro de 2010

ENUB - Parte IV


QUADRO II
Entra todos, menos Tião.
ROMANA – Senta meu velho, senta! Já andou demais!
BRÁULIO – É melhor descansar!
OTÁVIO – Deixa disso, também não me mataram! Que cara de espanto é essa, D. Maria? Fui preso, só isso!
MARIA – Mas está tudo bem?
OTÁVIO – Estamos aí, na activa!
BRÁULIO – Também, D. Romana fez revolução na polícia!
OTÁVIO – ETA, velha barulhenta! Quase que fica também.
ROMANA – E não é para gritar? Prender o homem da gente, assim à toa?
TIÃO (aparecendo na porta) – Com licença!
Todos esfriam. Mudos. Estáticos.
ROMANA – Vai ficar que nem estaca na porta entra!
TIÃO (a Otávio) – Eu queria conversar com o senhor!
OTÁVIO – Comigo?
TIÃO (firme) – É.
OTÁVIO – Minha gente, vocês querem dar um pulo lá fora, esse rapaz quer conversar comigo.
ROMANA – Eu preciso mesmo recolher a roupa!
JOÃO – Já vou indo, então. Até logo, seu Otávio, e parabéns!
OTÁVIO – Obrigado! (Saem. Tião e Otávio ficam a sós.) Bem, pode falar.
TIÃO – Pai...
OTÁVIO – Me desculpe, mas seu pai ainda não chegou. Ele deixou um recado comigo, mandou dizer para você que ficou muito admirado, que se enganou. E pediu para você tomar outro rumo, porque essa não é casa de fura-greve!
TIÃO – Eu vim-me despedir e dizer só uma coisa: não foi por covardia!
OTÁVIO – Seu pai me falou sobre isso. Ele também procura acreditar que não foi por covardia. Ele acha que você até que teve peito. Furou a greve e disse para todo mundo, não fez segredo. O teu pai acha que você é ainda mais filho da mãe! Que você é um traidor dos seus companheiros e da sua classe, mas um traidor que pensa que está certo! Não um traidor por covardia, um traidor por convicção!
TIÃO – Eu queria que o senhor desse um recado a meu pai...
OTÁVIO – Vá dizendo.
TIÃO – Que o filho dele não é um “filho da mãe”. Que o filho dele gosta de sua gente, mas que o filho dele tinha um problema e quis resolver de maneira segura. Que o filho é um homem que quer bem!
OTÁVIO – Teu pai vai ficar irritado com esse recado, mas eu digo. Teu pai tem outro recado para você. Teu pai acha que a culpa de pensar desse jeito não é só tua. Teu pai acha que tem culpa...
TIÃO – Diga a meu pai que ele não tem culpa nenhuma.
OTÁVIO (num rompante) – E deixa-o acreditar nisso, se não, ele vai sofrer muito mais. Vai achar que o filho dele caiu na merda sozinho. Vai achar que o filho dele é safado de nascença. (Acalma-se repentinamente.) Seu pai manda mais um recado. Diz que você não precisa aparecer mais. E deseja boa sorte para você.
TIÃO – Diga a ele que vai ser assim. Até um dia.
OTÁVIO – Até um dia! (Sai. Entra Romana.)
ROMANA (entrando) – Mandou ele embora mesmo, não é?
OTÁVIO – Enxergando melhor a vida, ele volta. (Retorna ao quarto)
ROMANA – Coitado do meu filho! Expulso de casa pelo próprio pai. E, ainda por cima, Maria preferiu ficar com os pais a ir morar com um “traidor”. (pausa) O fim só acontece uma vez, o que vem antes disso é apenas progresso. Será este o fim? (Sai triste.)
FIM

2 comentários:

Luis Eduardo disse...

Muito bom Jéssica!!!Conseguiu dar uma carga dramatica ainda maior colocando a Ramona na fala final, ela q ve o mundo desabar e segura as pontas, mesmo q da forma rude dela!Parabens!!Agora quero saber quando teremos a oportunidade de ver essa apresentação?Bem q vcs podiam apresenta-la além da sala de aula, eu faço campanha desde jaspion!

Tina disse...

Você, eu, minha professora, todos com esta campanha!
soahsoahsoahsa'
mas parece que não é todo mundo que pode, mas quem não puder, penso em chamar da ATO, eles gostariam muito de fazer, não acha?