sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Meio-dia.

Cármen ouvia o relógio da igreja decretar o instante com doze badaladas, como doze chibatadas em suas costas, como doze agulhas sendo engolidas por ela. Sabia que estava chegando a hora, mas, não poderia impedir que acontecesse.
No dia anterior ouvira seu marido falando ao telefone, sabia que seria ao meio-dia e quinze, quando ela tivesse que ir trabalhar, a hora de almoço acabara, Cármen nem precisava dessa folga hoje, não comera nada, nem queria, não sentia fome, ou sede, só uma angústia e uma vontade de ela mesma fazer o que ele pagara a um profissional. Só para não lhe dar esse gosto, foi então que tudo fez sentido. Cármen teve uma ideia, ficaria tudo bem, tudo se resolveria. Ela sabia que Marcos a traia, e, já não o amava mais, não como antes, não entendia exatamente porque, mas, acreditava ser pelo desprezo que ele a vinha tratando.
Sem mais êxitos pegou papel e caneta e se pôs a escrever, não tinha agora mais que 13 minutos. Tinha de correr.
Tudo certo, apanhou sua bolsa, nada mais levaria, nada mais precisava. Não queria nada que a prendesse a essa vida, sabia o que queria e tinha dinheiro para isso.
Meio-dia e quinze.
Marcos estava plantado a alguns minutos na porta de sua casa. Então, chegara finalmente a hora. Não se aguentava de ansiedade, após fazer isso toda a sua vida mudaria. Tudo!
Cármen já deveria ter decido, algo acontecera. Com um embrulho e o coração na mão Marcos entrou, mas, não encontrou ninguém. A porta da frente estava trancada e a dos fundos aberta, mas, sua mulher também não estava no quintal. Quando voltou para a sala é que viu, estava lá sobre a mesa, um bilhete, todo escrito com a letra de Cármen, dizia:
"Sei o que pretende fazer, não vou me submeter a nada que ajude vocês! Estou indo embora, não me procure, quero viver. Saiba você que eu já descobri tudo. Sinceramente, um dia eu te amei"
Enquanto lia as lágrimas de Marcos rolavam por seu rosto, Cármen entendera tudo errado. Ele nunca a traíra, jamais faria isso com ela, a amava mais que sua própria vida. Nos últimos meses, admitia ter se afastado um pouco dela, não tivera tempo de dar-lhe atenção, ia trabalhar muito cedo e após sair do escritório sempre visitava o orfanato, certa vez pensou ter visto o carro de Cármen passar enquanto ele falava com uma das inspetoras do lugar, foi no dia que ele recebera a permissão, ele e Cármen poderiam finalmente adotar o filho que, naturalmente, não podiam ter.
No dia anterior resolvera tudo, parte pessoalmente, parte por telefone, os papéis da adoção foram todos liberados, ele pegaria pela manhã e contaria tudo ao meio-dia e quinze.
O envelope em sua mão, já encharcado pelas lágrimas, de nada serviria. Seu propósito maior, quem ele mais desejava... Se fora.

4 comentários:

alex disse...

lindo texto amor! *-*
tadin do cara =[

Tina disse...

É.. Depois até eu fiquei com dó deele ;/

Viu? Vamo compra Coca? sakskakskakska *-*

alex disse...

coca não podi mais.
ta proibido

Tina disse...

ksakksak' Tinha me esquecido desse detalhe