segunda-feira, 15 de abril de 2013

Alice

Conheci Alice há alguns anos. Eu estava, como de costume, sentado naquele café estrategicamente posicionado - próximo aos escritórios do centro da cidade - atulhado de papéis que insistia em levar para casa, como se já não trabalhasse o suficiente durante o dia.

Era ainda cedo, umas 7 da manhã, eu acho, e lá estava eu, saboreando meu café e tentando me concentrar naqueles processos para me desligar dos problemas de casa, que me fazem preferir pagar pela refeição toda manhã só para poder sair uma hora mais cedo e passar uma hora a menos com uma mulher que há muito já não chamo de minha.

Levantei meus olhos por alguns instantes e a vi entrar vagarosamente carregando alguns livros. De imediato, o modo como ajeitou os cabelos já me chamou a atenção. Futuramente eu tentaria me lembrar do momento exato em que apaixonei por ela e, sem dúvida alguma, saberia que foi quando sua mão esquerda passou, desajeitadamente, pelos cabelos soltos, afastando-os e deixando a mostra a orelha pequena e os brincos dourados.

Sentou-se em uma mesa afastada, ao canto, acomodando a pequena biblioteca sobre uma cadeira almofadada. Fez um sinal discreto ao garçom que, de modo eficiente, anotou seu pedido. No breve intervalo até a chegada deste, sorvi o conteúdo restante de minha xícara e me encaminhei ao caixa, com a intenção de me retirar.

Porém, não imaginam o quão surpreendido fiquei ao sentir o toque frio de uma mão macia em meu ombro, seguido de uma delicada voz, mas que continha em si uma certeza e obstinação inconfundíveis.

- Senhor Petreli? Marcos Petreli? - Era ela. Me olhava indagativamente esperando uma confirmação.

- Sim, sou eu. Em que posso ajudá-la...

- Alice. Se o senhor tiver um minuto lhe explicarei. Aceita um café? Mais um? - E sorriu, um sorriso tão simpático, encantador e inocente que não pude deixar de ceder.

Nos encaminhamos para sua mesa, onde dois cafés nos esperavam e me perguntei como ela sabia que eu não iria recusar ao seu convite de me sentar um pouco. Em poucas palavras, de maneira direta, ela me explicou seu caso. Vivera, por anos, a procura do pai biológico de quem pouco se lembrava. Havia alguns meses que o localizara e me procurava, como advogado, para saber que direitos possuía.

Comecei a lhe instruir sobre a pensão e procedimentos legais quando me interrompeu dizendo:

- Não preciso de dinheiro, senhor. Tudo o que quero é o sobrenome a que tenho direito.

Me deixou intrigado tal desejo e, como percebi mais tarde, obsessão. Mas não lhe neguei, novamente. Eu poderia muito bem ter-lhe indicado um advogado competente que costumasse  trabalhar com casos da área familiar, que não era o meu caso, afora eu estar com trabalho mais que o suficiente. Da mesma maneira que ela não procurava dinheiro do pai, não foi por dinheiro que aceitei ajudá-la.

Deixei meu cartão sobre a mesa ao sair, ouvindo a promessa de uma ligação para marcar um encontro formal. Não foi necessário esperar muito. Logo, às 15 horas, recebo um recado de minha secretária, de que uma cliente, Alice Sampaio, com quem falei pela manhã havia me telefonado marcando um jantar às 20 horas no Sapore.

Fosse quem fosse, não aceitaria, mas ela já me enfeitiçara. Saí mais cedo do escritório naquele dia, passando rapidamente por casa para me lavar e, às 19:57, estava eu, em meu carro, esperando ansiosamente em frente a entrada do local.

Quando, às 20:15, eu já pensava ter sido logrado, vejo quem vem, caminhando pela rua vagarosa e elegantemente, dentro de suas meias 7/8 fio 20 e tênis. Pensei comigo sobre já havia visto alguém se vestindo assim e concluí que não. Mas, tendo Alice seus, no máximo, 20 anos, facilmente perdoei a extravagância bela com que se vestia.

Desci do carro, o que fez com que me visse e caminhasse até mim.

- Boa noite

- Boa noite, Alice. Vamos entrar?

- Me perdoe pelo atraso, é que eu estava decidindo se deveria realmente vir. Se o senhor puder, eu preferia conversar em um lugar mais reservado.

- É claro, alguma sugestão?

- Poderia ser em meu apartamento, se não se importa.

Entramos no carro e Alice me guiou até um pequeno prédio, na periferia mal iluminada da cidade, onde subimos dois lances de escada engordurada até chegar a uma porta onde ainda se podia ver o sinal deixado por um número 8, provavelmente de metal, que estivera afixado ali por muito tempo.

A garota destrancou a porta sem muita dificuldade e me indicou a entrada. Muito educadamente entrei, me dirigindo ao interior de um quarto-e-sala minúsculo e cheirando a lavanda. Ao me virar, me deparei com seu rosto bem próximo ao meu e puder ouvir meu coração gritar.

Calmamente, como quem já tinha tudo premeditado, ela disse.

- Era mentira.

Tentei argumentar, mas acontecia exatamente aquilo que eu, inconscientemente, queria: uma garota bonita e jovem se insinuando para mim sem nenhum motivo aparente. Por mais que eu tente me recordar não sou capaz de dizer porque fiz o que fiz. Às vezes, quando penso no assunto em demasia, acredito ser ela a culpada de tudo. A maneira como me olhava, o lugar para o qual me levou, a forma como tocou em meu ombro naquela manhã, tudo me levara àquilo.

Agora, sentado nesta sala fria e vazia, vejo o noticiário sensacionalista que mostra a foto da garota encontrada há anos nua e sem vida na terraço de um pequeno prédio na periferia mal iluminada da cidade.

3 comentários:

Pedro Henrique disse...

Se você continuar a escrever assim acho que terei de pedir algumas aulas pra você! Haha =D

Texto gostoso de ler, dá vontade de repetir o prato e aproveitar mais um pouquinho, envolvente e com um final digno! Alguém aqui anda progredindo bastante! Haha =)

Continue assim! Abraços Fleur

PedrodeAmolar

Jéssica Marques disse...

Ai, queria escrever muito mais... Mas me obriguei a parar por aí haha

Nícolas Ferreira da Silva disse...

Nossa, confesso que cai na leitura como cai no livro "Os Assassinatos da Rua Morgue" do Poe! Ficou ótimo e como o Pedro disse, deu vontade de voltar, continuar, ir além do que pode. Mas como o teatro que não nos permite rever, é único, o texto também não nos permite continuar. Mas aproveito a liberdade de leitor para imaginar, criar e inventar. Posso pensar os motivos, os pedidos, acontecimentos, quase que uma forma de carinho.
No fundo é isso que sinto uma forma de carinho num suspense quase rouco.

Obrigado por lembrar de mim, continue escrevendo. Quero mais !